
Uma pesquisa recente indica que 60% dos brasileiros consideram que conversar com uma inteligência artificial pode configurar traição quando a pessoa está em um relacionamento amoroso. O dado revela como o avanço de ferramentas de IA, cada vez mais presentes no cotidiano, começa a gerar questionamentos sobre os limites entre tecnologia, afeto e vida privada.
O levantamento foi realizado pela plataforma Gleeden, aplicativo internacional voltado a relacionamentos e comportamento afetivo, que atua no Brasil e em outros país e investigou percepções sobre vínculos emocionais, confidências e interações de cunho íntimo mediadas por sistemas de inteligência artificial.
O que os brasileiros consideram traição
De acordo com a pesquisa, a percepção de traição não está restrita a interações físicas. Para a maioria dos entrevistados, o investimento emocional em conversas privadas com uma IA, especialmente quando envolve segredos, desabafos ou conteúdos eróticos, pode ser entendido como quebra de confiança.
O estudo mostra que 36% dos participantes afirmam que se sentiriam desconfortáveis se o parceiro se abrisse emocionalmente com uma IA, enquanto 29% admitem já ter usado ferramentas de inteligência artificial com fins eróticos ao menos ocasionalmente.
Apesar disso, 83% dos entrevistados dizem não acreditar que seja possível se apaixonar de fato por uma inteligência artificial, o que indica que, para a maioria, a percepção de traição está mais ligada ao comportamento humano do que à existência de um “vínculo real” com a tecnologia.
Uso emocional da IA cresce no cotidiano
A pesquisa dialoga com outros levantamentos recentes sobre comportamento digital no Brasil, que apontam o crescimento do uso de ferramentas de IA para fins pessoais, como escrever mensagens íntimas, pedir conselhos afetivos ou organizar conversas difíceis com parceiros.
Esses estudos indicam que a inteligência artificial vem sendo utilizada não apenas como ferramenta funcional, mas também como mediadora emocional, ocupando espaços antes restritos a amigos, familiares ou terapeutas.
Especialistas apontam para questões pré-existentes
Para a terapeuta sexual Thaís Plaza, que acompanhou a divulgação dos dados, o uso da IA não deve ser visto como causa direta de crises nos relacionamentos. “A inteligência artificial não cria um problema do nada. Quando alguém recorre a esse tipo de ferramenta para desabafar ou buscar intimidade, geralmente já existe uma insatisfação ou dificuldade de comunicação na relação”, afirma.
Segundo ela, a reação negativa de parte dos entrevistados revela mais sobre expectativas de exclusividade emocional do que sobre a tecnologia em si.
Limites entre confidência e infidelidade
Pesquisadores que estudam relações afetivas destacam que o conceito de traição emocional já existe há décadas e costuma estar associado à transferência de atenção, tempo e intimidade para fora do relacionamento principal, especialmente quando isso ocorre de forma escondida.
Nesse contexto, a IA surge como um novo elemento que amplia o debate: embora não haja reciprocidade humana, o ato de compartilhar conteúdos íntimos ou emocionais pode ser percebido como quebra de acordo afetivo entre parceiros.
Um debate em formação
Os dados mostram que a sociedade ainda está construindo parâmetros para lidar com essas novas formas de interação. O uso de inteligência artificial em contextos afetivos expõe mudanças mais amplas na forma como as pessoas se relacionam, se comunicam e buscam acolhimento.
Para especialistas em comportamento digital, o debate não passa por proibir ou estigmatizar o uso da tecnologia, mas por repensar pactos de confiança e transparência nos relacionamentos, em um cenário em que a presença da IA tende a se tornar cada vez mais comum.