
Levantamento da Quaest revela que a participação feminina na renda familiar se iguala à masculina, mas jornada dupla e desigualdade salarial impulsionam a busca por protagonismo e pautam o debate político.
Uma profunda transformação na sociedade brasileira está sendo impulsionada pelas mulheres, especialmente as mais jovens, que estão ativamente redefinindo seus papéis no trabalho e na vida familiar. É o que revela a pesquisa “O Brasil no Espelho”, da consultoria Quaest, que ouviu 10 mil pessoas em 340 municípios. O estudo aponta que, em meio a um cenário de desafios e uma onda conservadora recente, as mulheres assumem o papel de motor modernizante em diversas áreas da vida.
O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest e autor do livro, explica que é justamente a persistente discriminação e a desvantagem em relação aos homens que as levam a encabeçar essa mudança. Apesar de terem herdado conquistas das gerações feministas anteriores, essa nova safra busca maior igualdade de forma “pé no chão”, motivada pela extenuante realidade de jornadas duplas e triplas.
Protagonismo econômico
Um dos achados mais surpreendentes do levantamento é a mudança no panorama financeiro familiar, já que em quase metade das famílias brasileiras, as mulheres contribuem com a maior fatia da renda, independentemente de classe social ou estado civil. Esse é um feito notável que reflete o avanço feminino no mercado de trabalho, onde, em meio século, a participação saltou de 29% para 49% das vagas.
Apesar do avanço, a pesquisa confirma que elas ainda ganham 21% menos do que os homens e são minoria em cargos de comando, o que alimenta a busca por protagonismo. A aspiração por autonomia é alta: 81% das mulheres (contra 84% dos homens) cogitam abrir o próprio negócio, uma trilha que se expandiu 42% na última década, somando mais de 10 milhões de empreendedoras.
Em termos de mentalidade, a pesquisa reforça que as normas tradicionais de feminilidade estão sendo abandonadas. 62% das entrevistadas afirmam não seguir o roteiro clássico, e uma esmagadora maioria de 67% reconhece que a maternidade não é um pré-requisito para a realização pessoal. Quanto mais jovens as entrevistadas, maior a rejeição a essas velhas cartilhas.
Pauta política
O estudo também ilustra o abismo de percepção entre os gêneros. Enquanto apenas 59% das mulheres concordam que o marido deve ser o principal provedor do lar, esse índice sobe para 69% entre os homens, indicando uma rápida mudança de olhar por parte delas.
A longevidade feminina, que é 6,6 anos superior à masculina, deve dar às mulheres o comando da chamada “economia prateada” no futuro. Além disso, elas já são maioria e exibem maior escolaridade, com 29% de diplomas de ensino superior, ante 17% dos homens.
A sobrecarga invisível de trabalho também é ressaltada. Um grande batalhão de mulheres se divide entre o emprego, o cuidado com os filhos e o apoio aos pais idosos, contribuindo para um nível de estresse altíssimo. Esse esgotamento e a violência crescente que faz com que mais de 60% levem uma vida mais caseira, por segurança, estão levando as mulheres a puxar temas cruciais para o debate político de 2026, como equiparação salarial, flexibilização da jornada e escola em tempo integral.
A análise da Quaest conclui que, ao se tornarem mais livres e progressistas, as mulheres estão forçando os homens a refletir sobre seu próprio papel, enquanto plantam um futuro de maior igualdade para todos.