
A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República alterou de forma significativa o equilíbrio de forças dentro da direita brasileira e praticamente extinguiu as possibilidades eleitorais do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Políticos da centro-direita avaliam que a escolha da família Bolsonaro por um nome menos competitivo nacionalmente garante ao clã a manutenção da liderança do campo conservador pela terceira eleição consecutiva.
Anunciada no dia de Natal, quando Flávio leu uma carta manuscrita de Jair Bolsonaro minutos antes de o ex-presidente entrar em um centro cirúrgico, a decisão foi embalada como passagem de bastão familiar. Porém, Brasília interpretou o movimento de forma pragmática: uma estratégia para manter o poder concentrado no núcleo dos Bolsonaros.
“A família Bolsonaro optou por garantir que o clã continue protagonista da direita conservadora”, resumiu um integrante do PP. A leitura é que assumir a liderança do processo permite à família definir discurso, propostas e alianças. Ainda que Flávio prometa ser um Bolsonaro moderado, a linha mestra das propostas econômicas, políticas e de costumes continuará saindo de dentro do clã.
Pesquisa da AtlasIntel revelada nesta quarta (21) confirma o impacto da decisão. No cenário em que Flávio e Tarcísio disputam simultaneamente, o presidente Lula lidera com 48,4% das intenções de voto, seguido por Flávio com 28% e Tarcísio com apenas 11%. A diferença de 17 pontos percentuais entre os dois candidatos da direita evidencia a assimetria na capacidade de herdar o eleitorado bolsonarista.
Entre os eleitores que votaram em Bolsonaro em 2022, o domínio de Flávio é ainda mais expressivo: 59,2% afirmam que votariam no senador em 2026, contra apenas 21,1% que migrariam para Tarcísio. Antes do anúncio da pré-candidatura de Flávio, o governador paulista figurava como principal nome da direita fora do núcleo familiar, com desempenho mais equilibrado e menor rejeição.
A estratégia da família ficou explícita quando Flávio afirmou que o pai daria um recado direto a Tarcísio: a corrida presidencial está descartada e sua reeleição em São Paulo é “fundamental” para o projeto nacional do bolsonarismo. “Tarcísio vai ouvir da boca de Bolsonaro que está fazendo um grande trabalho como governador e que sua reeleição é fundamental para derrotar o PT. As eleições presidenciais estão descartadas para ele”, declarou o senador.
Um encontro entre Bolsonaro e Tarcísio, que seria o primeiro desde a prisão do ex-presidente, chegou a ser autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes e estava marcado para quinta-feira (22). Porém, foi cancelado no mesmo dia em que a fala de Flávio sobre a exclusão de Tarcísio veio a público. A Secretaria de Comunicação do governo paulista alegou “compromissos em São Paulo”.
Para analistas políticos, a decisão da família representa falta de renovação na direita. “A corrida presidencial é o maior palco da política, quando a maior parte da população presta atenção. Os Bolsonaros decidiram não dividir os holofotes, impedindo que Tarcísio ganhe projeção”, afirmou um integrante do União Brasil.
O movimento também fortalece o controle da direita no Congresso. Segundo um parlamentar do MDB, a indicação de Flávio aumenta as chances de a bancada bolsonarista raiz se reeleger na Câmara e crescer no Senado, reforçando o discurso conservador defendido pela família.
Apesar dos números desfavoráveis, Tarcísio segue sendo o nome preferido de empresários, mercado financeiro e lideranças da centro-direita, que o consideram mais capaz de ampliar alianças e reduzir rejeição em um eventual segundo turno. Contudo, a pressão desses setores esbarra na realidade das pesquisas e no poder de veto da família Bolsonaro.
A decisão também traz riscos. Em caso de derrota, Flávio ficaria sem mandato e foro, vulnerável em investigações. Bolsonaro, por sua vez, abriu mão de um possível acordo com Tarcísio e o centrão que poderia resultar em perdão da pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe. A leitura é que preferiu ser o principal nome da direita, ainda que preso, a ser coadjuvante em liberdade.