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O Banco Central decretou, nesta terça-feira (18), a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando meses de turbulência envolvendo a instituição comandada por Daniel Vorcaro. A medida foi acompanhada da instauração de uma administração especial temporária, válida por 120 dias, e representou o reconhecimento oficial de que o conglomerado já não possuía condições mínimas de funcionamento. A decisão ocorreu um dia após a Fictor Holding Financeira anunciar uma proposta de compra; operação que, assim como tentativas anteriores, foi automaticamente interrompida com a liquidação.

O movimento do Banco Central foi sustentado por duas frentes. De um lado, deterioração da situação econômico-financeira da instituição, marcada por dificuldades de liquidez, captação cara e investimentos de risco; de outro, sucessivas infrações regulatórias que vinham sendo apontadas por órgãos de controle. A emissão de CDBs com remuneração muito acima do mercado, a exposição a precatórios e a empresas em crise e a falta de transparência em negociações estratégicas agravaram a desconfiança sobre o Master.

Prisão de Vorcaro

A decisão do BC, no entanto, ganhou contornos dramáticos quando, horas antes, Daniel Vorcaro, dono do banco, foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos. Segundo investigadores, o executivo deixara o banco na tarde de segunda-feira, após a divulgação do comunicado sobre a venda, e seguiu para o terminal da aviação executiva, de onde embarcaria em um avião particular com destino a Malta. Para os agentes, não há dúvida de que se tratava de uma tentativa de fuga. Não necessariamente da operação deflagrada no dia seguinte, mas de uma movimentação para se afastar do país após a repercussão da venda do Master.

A prisão de Vorcaro ocorreu no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras. As apurações começaram em 2024 e miram crimes como gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Segundo o Ministério Público Federal, carteiras de crédito sem lastro teriam sido fabricadas e vendidas a outra instituição; diante de questionamentos do Banco Central, os papéis foram substituídos por ativos sem avaliação técnica. Vorcaro foi levado à Superintendência da PF em São Paulo.

Com o controlador preso e o banco fechado, voltou ao centro da discussão a instabilidade que marcou as tentativas de venda da instituição ao longo de 2024 e 2025. A Fictor Holding, patrocinadora do Palmeiras, havia anunciado interesse na compra do Master na segunda-feira (17). A operação previa aporte imediato de R$ 3 bilhões e contava com investidores dos Emirados Árabes Unidos. Apesar do anúncio, o negócio ainda dependia da aprovação do Cade e, principalmente, do Banco Central.

Venda frustrada

Essa não foi, porém, a primeira negociação frustrada envolvendo o banco de Vorcaro. Meses antes, o Banco de Brasília (BRB) havia tentado adquirir o Master. O acordo tinha apoio político no Distrito Federal — incluindo uma lei aprovada em tempo recorde pela Câmara Legislativa e sancionada pelo governador Ibaneis Rocha — e havia recebido aval prévio do Cade. No entanto, em setembro, o Banco Central barrou a operação ao considerar que não estavam comprovadas a viabilidade econômico-financeira nem a solidez necessária para a transação. Órgãos de controle já contestavam a operação, citando falta de transparência e a presença do Master em investigações sensíveis.

Com a liquidação extrajudicial, o Master deixa de operar e passa integralmente ao controle de um liquidante designado pelo BC, responsável por encerrar as atividades, vender bens e pagar credores na ordem legal. É a etapa final antes da extinção da instituição do sistema financeiro. Todas as operações ficam suspensas e qualquer negociação em curso é automaticamente cancelada.

A crise envolvendo o Master, porém, avançou sobre o sistema financeiro do DF. No mesmo dia da prisão de Vorcaro e da liquidação do banco, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo por decisão judicial. Ele é um dos alvos da operação policial e estava nos Estados Unidos quando a medida foi anunciada. O afastamento amplia a repercussão institucional do caso e reforça a necessidade de esclarecimentos sobre o papel do BRB nas tentativas de compra, que agora se tornam ainda mais delicadas sob o escrutínio da Polícia Federal e do Banco Central.

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