
Um levantamento publicado pelo The New York Times nesta terça-feira (27) aponta que a Casa Branca, sob o governo de Donald Trump, passou a utilizar de forma recorrente nas redes sociais uma linguagem próxima à adotada por grupos extremistas nos Estados Unidos. A análise se baseia em dados de publicações feitas por perfis oficiais do governo, que ampliaram significativamente o volume de postagens e passaram a empregar termos, símbolos visuais e enquadramentos associados à extrema direita.
Segundo o NYT, a estratégia digital do governo não se limita a defender políticas públicas ou divulgar atos oficiais. Em diversas ocasiões, as contas institucionais compartilharam conteúdos com tom agressivo, deslegitimação de opositores e referências visuais que remetem a discursos historicamente ligados ao supremacismo branco e a movimentos radicais online. O jornal observa que esse tipo de abordagem, antes comum em fóruns extremistas e perfis militantes, passou a circular a partir do próprio Estado.
“As postagens fizeram referência à literatura neonazista, à limpeza étnica e às teorias da conspiração do QAnon, cogitaram a deportação de quase um terço da população dos EUA e promoveram trechos de um hino entoado pelos militantes de extrema-direita do grupo Proud Boys”, comenta o jornal. “Seus autores não estão à margem da sociedade. Eles trabalham nos escritórios da Casa Branca e nos departamentos de Segurança Interna e do Trabalho, utilizando contas oficiais do governo”, diz adiante.
Exemplos das postagens analisadas
Entre os exemplos citados pelo jornal norte-americano estão publicações oficiais que utilizam expressões como “invasão” para se referir à imigração, linguagem recorrente em comunidades extremistas digitais, além de postagens que retratam opositores políticos como inimigos internos ou ameaças existenciais ao país. Em outros casos, o governo compartilhou imagens manipuladas ou montagens gráficas de forte impacto emocional, com estética semelhante à usada em campanhas de desinformação e propaganda radical.
O jornal também identificou postagens que recuperam slogans e enquadramentos associados a teorias conspiratórias populares em grupos de extrema direita, além de conteúdos que sugerem a necessidade de “limpeza” institucional ou “retomada” do país, termos frequentemente mapeados por pesquisadores como marcadores de radicalização política.
Neste mês, por exemplo, a Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna divulgaram conjuntamente, nas redes sociais, um anúncio de recrutamento para o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). A peça foi publicada no Instagram, no Facebook e no X e trazia a frase “teremos nossa casa novamente”.
A expressão, no entanto, não é neutra. Ela é o título de uma música criada por integrantes de uma autodenominada “ordem fraternal pró-branca” e foi posteriormente incorporada por grupos como os Proud Boys e outros movimentos nacionalistas brancos. O uso do slogan em um canal oficial do governo chamou atenção de especialistas e analistas por reproduzir uma linguagem historicamente associada ao extremismo.

O papel de Donald Trump na estratégia digital
De acordo com o New York Times, o padrão das postagens reflete diretamente o estilo político de Donald Trump, que há anos utiliza as redes sociais como principal ferramenta de mobilização e confronto. Sob sua liderança, no entanto, a Casa Branca passou a operar os canais oficiais como extensões do discurso político do presidente, reduzindo a separação tradicional entre comunicação institucional e propaganda ideológica.
A análise destaca que administrações anteriores adotavam linguagem mais neutra e informativa nos perfis oficiais. No atual governo, essa distinção se diluiu, com mensagens que atacam a imprensa, desqualificam adversários e reforçam uma narrativa de conflito permanente.
Um padrão já observado fora dos EUA
Embora o levantamento tenha sido conduzido pelo New York Times, esse movimento já vinha sendo acompanhado por outros veículos internacionais e por pesquisadores que monitoram extremismo digital. A convergência dessas análises indica que o caso da Casa Branca não é isolado, mas parte de uma tendência mais ampla de uso de canais oficiais do Estado para amplificar discursos antes restritos a margens do debate político.
Especialistas ouvidos alertam que o uso de linguagem associada a grupos extremistas por contas governamentais tem impacto direto sobre o debate público. Quando esse tipo de retórica parte do Estado, há um efeito de normalização e legitimação que pode enfraquecer limites democráticos e estimular a radicalização política.
O jornal ressalta que o debate não se concentra apenas na liberdade de expressão do presidente, mas no uso de estruturas oficiais para difundir mensagens que, em outros contextos, seriam classificadas como discurso extremista.
Comunicação oficial sob nova lógica
A Casa Branca afirma que a estratégia digital busca falar diretamente com a população, sem intermediação da imprensa tradicional. O NYT, no entanto, destaca que a questão central não é apenas o canal utilizado, mas o conteúdo e o enquadramento das mensagens.
Ao adotar linguagem, imagens e narrativas associadas à extrema direita, a comunicação institucional dos Estados Unidos passa a redefinir os limites entre informação pública, propaganda política e radicalização discursiva.