
Nos últimos anos, praias do litoral da Bahia passaram a registrar a presença crescente de jovens israelenses que chegam ao Brasil após concluir o serviço militar obrigatório em seu país. Destinos como Morro de São Paulo, Itacaré e Boipeba se consolidaram como paradas frequentes em uma rota internacional de viagem que muitos cidadãos de Israel percorrem ao deixar as Forças de Defesa do país.
Grupos de visitantes na faixa dos 20 anos ocupam hostels, bares e praias por semanas ou meses. A presença é visível especialmente em áreas de maior circulação turística, onde o hebraico passou a ser ouvido com frequência nas ruas.
Em Israel, o serviço militar é obrigatório para a maior parte da população. Homens servem cerca de 32 meses e mulheres aproximadamente 24 meses nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Após esse período, grande parte passa automaticamente para o sistema de reservistas, podendo ser convocada novamente em caso de conflito. Para muitos desses jovens, viajar pelo exterior se tornou uma espécie de rito de passagem após anos de serviço militar.
“Depois de tanto tempo no exército, você precisa sair e respirar um pouco”, disse à reportagem um israelense na faixa dos 20 anos que estava em Itacaré e pediu para não ter o nome divulgado. “O Brasil é muito diferente da nossa realidade, é um paraíso”, disse apontando para quantos israelenses haviam ao redor.
Questionado sobre a possibilidade de voltar ao país em caso de convocação, ele respondeu de forma direta: “Ninguém quer a guerra, mas a convocação faz parte da nossa vida. Se o governo de Israel chamar, eu volto”, antes de insistir em como nós, da reportagem, opinávamos do conflito.
Abordado pela reportagem, um outro grupo de jovens que conversava em hebraico em um bar recusou entrevista. Um deles respondeu brevemente, em inglês, que estavam apenas “em temporada de lazer depois do exército” e que preferiam não falar sobre política ou sobre Israel.
Cultura pop e turismo
A presença de turistas israelenses na Bahia não surgiu apenas por rotas tradicionais de mochilão. Parte desse fluxo foi impulsionada por um fenômeno cultural específico: a série israelense “Malabi Express”, exibida em Israel a partir de 2013.
Gravada em Morro de São Paulo, a produção acompanha três jovens israelenses que se mudam para o Brasil após concluir o serviço militar e passam a vender malabi, uma sobremesa típica do Oriente Médio. A série é inspirada em experiências reais do humorista israelense Miki Geva, autor do livro autobiográfico que serviu de base para o roteiro.
A produção teve grande repercussão em Israel e acabou transformando a vila baiana em um destino conhecido entre jovens recém-saídos do exército. A paisagem tropical e o estilo de vida retratados na série passaram a circular entre comunidades de viajantes e redes sociais.
Reportagens sobre o fenômeno indicam que, em determinados períodos recentes, mais da metade dos turistas estrangeiros em Morro de São Paulo era composta por israelenses.
O impacto foi visível na economia local. Restaurantes passaram a oferecer cardápios em hebraico, alguns estabelecimentos incluíram pratos da culinária israelense e eventos voltados a esse público se tornaram frequentes. Em algumas ocasiões, festas organizadas na ilha chegaram a reunir cerca de 2 mil jovens israelenses. Com o tempo, destinos próximos como Itacaré e Boipeba passaram a integrar o mesmo circuito turístico.
A rota israelense da Bahia
Historicamente, jovens israelenses costumam viajar para países da América do Sul como Argentina, Peru, Bolívia e Colômbia, além de destinos asiáticos como Índia, Nepal e Tailândia. Essas viagens costumam ocorrer logo após o fim do serviço militar e podem durar vários meses.
Nos últimos anos, empresários do setor turístico em Itacaré relatam que o fluxo de visitantes israelenses cresceu e se tornou mais perceptível na cidade.
Alguns hostels passaram a receber grupos organizados que chegam juntos ao Brasil, muitas vezes seguindo recomendações de amigos ou de comunidades online de viajantes.
Parte desses visitantes permanece por períodos relativamente longos, o que altera a dinâmica turística local. Enquanto turistas brasileiros costumam permanecer poucos dias, alguns estrangeiros ficam semanas ou meses na cidade.
Viagem como ruptura após o serviço militar
Pesquisadores e reportagens internacionais apontam que as viagens realizadas por jovens israelenses após o serviço militar costumam representar um período de ruptura com a rotina rígida vivida no exército. O fenômeno é conhecido entre os próprios viajantes como uma fase de “liberação” depois de anos submetidos a disciplina militar intensa.
Em destinos turísticos frequentados por esse público, como partes da Ásia e da América do Sul, é comum que grupos de jovens adotem um estilo de vida marcado por festas prolongadas, consumo frequente de álcool e, em alguns casos, uso de drogas recreativas.
Moradores e trabalhadores do setor turístico em Itacaré relatam que esse comportamento também pode ser observado em áreas de grande circulação noturna da cidade, especialmente na região da Pituba.
“Eles chegam muito jovens, depois tempo dentro do exército. Querem aproveitar tudo ao máximo”, disse um comerciante que trabalha na região central da cidade. “Às vezes exageram, e isso acaba gerando conflito.”
Relatos de moradores apontam que, em alguns casos, os grupos ocupam bares e festas por horas seguidas, com consumo elevado de álcool e comportamentos considerados excessivos por parte da população local.
Esse tipo de dinâmica já foi observado em outros destinos tradicionais de mochilão israelense, como Goa, na Índia, e cidades do Nepal, onde o fluxo de jovens após o serviço militar se tornou um fenômeno turístico consolidado.
Conflito na Pituba
O aumento da presença de visitantes estrangeiros também trouxe episódios de tensão. No início de março, uma vendedora ambulante denunciou ter sido vítima de agressões verbais e físicas após um desentendimento com um grupo de turistas israelenses na região da Pituba, área central de Itacaré conhecida por concentrar bares, restaurantes e comércio noturno.
Segundo relatos divulgados por moradores e testemunhas, a ambulante estava trabalhando normalmente quando iniciou uma discussão com integrantes do grupo estrangeiro. Durante o conflito, ela afirma ter sido insultada e humilhada diante de outras pessoas que circulavam pelo local.
“Eles começaram a me xingar e me tratar com desrespeito. Foi muito humilhante”, relatou a trabalhadora em vídeos divulgados nas redes sociais.
Testemunhas disseram que o clima ficou tenso por alguns minutos e que outras pessoas precisaram intervir para evitar que a situação se agravasse. O episódio repercutiu entre moradores e comerciantes da cidade, que voltaram a discutir a convivência entre turistas estrangeiros e trabalhadores locais. Até o momento, não há confirmação oficial sobre registro de boletim de ocorrência.
Reservistas em viagem
Mesmo quando estão viajando pelo exterior, muitos desses jovens continuam formalmente vinculados ao sistema de defesa israelense. Israel mantém uma das maiores estruturas de reservistas militares do mundo, com centenas de milhares de cidadãos aptos a serem convocados em caso de guerra.
Após os ataques de 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou uma ofensiva contra Israel e o país iniciou a guerra em Gaza, milhares de israelenses que estavam viajando pelo exterior foram convocados de volta ao país. Parte deles retornou diretamente de viagens na América Latina.
Esse contexto faz com que parte dos viajantes presentes em destinos turísticos seja composta por pessoas que recentemente participaram de operações militares ou que continuam aptas a retornar ao serviço em caso de escalada do conflito.
Turismo global e tensões locais
A presença crescente de jovens israelenses em destinos turísticos ao redor do mundo não é um fenômeno recente. Países como Índia e Nepal registram há décadas fluxos semelhantes após o serviço militar. Em alguns desses destinos, episódios de tensão entre grupos de viajantes e comunidades locais também foram registrados ao longo do tempo.
Em Itacaré, moradores afirmam que a convivência costuma ser majoritariamente tranquila, mas reconhecem que o aumento do fluxo internacional modifica a dinâmica social de determinadas áreas da cidade. A Pituba, onde ocorreu o episódio envolvendo a ambulante, é um dos principais pontos de encontro entre turistas e trabalhadores locais. “Turista é sempre bem-vindo, mas precisa respeitar quem vive e trabalha aqui”, disse um comerciante da região.
Entre turismo e geopolítica
A presença de reservistas israelenses em praias brasileiras revela um fenômeno que vai além do turismo convencional.
Para muitos desses jovens, as viagens representam uma pausa após anos de serviço militar obrigatório em um país que vive sob permanente tensão regional. Para cidades turísticas como Itacaré, esse fluxo significa a chegada de visitantes que trazem consigo experiências marcadas por um contexto de guerra e mobilização militar constante.
Quando esses trajetos se encontram em lugares como o litoral da Bahia, questões que parecem distantes, como conflitos no Oriente Médio, militarização e geopolítica , acabam se cruzando com o cotidiano de moradores, trabalhadores e turistas que compartilham os mesmos espaços.
E episódios de tensão local, como o registrado recentemente em Itacaré, mostram que essa convivência também pode revelar fricções entre realidades muito diferentes que passam a dividir as mesmas ruas e praias.