
O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil-RJ), foi preso nesta quarta-feira (3) pela Polícia Federal (PF) na Operação Unha e Carne. Segundo o inquérito, ele é suspeito de ter informado antecipadamente ao então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias (MDB-RJ), sobre o cumprimento de mandados da Operação Zargun, deflagrada em 3 de setembro.
As mensagens anexadas ao inquérito mostram que, após receber o aviso, TH Joias iniciou uma limpeza acelerada na própria casa, apagou o celular, comprou um aparelho novo e chegou a organizar uma mudança usando um caminhão-baú. Em um dos diálogos, enviados por vídeo ao presidente da Alerj, TH aparece diante de um freezer cheio de carnes e pergunta o que deveria fazer com os objetos antes da chegada da PF.
“Vão roubar as carnes?”: diálogos revelam alcance do alerta
Segundo o relatório da PF, TH questionou Bacellar sobre o que deveria retirar da casa, demonstrando preocupação com o eletrodoméstico lotado de alimentos.
No vídeo enviado ao presidente da Alerj, o então deputado diz:
“Ô presida! Não tem como levar não, irmão… Esses filhas das putas vão roubar as carnes, hein.”
De acordo com o inquérito, Bacellar respondeu:
“Deixa, doido.”
Em outro trecho citado pelos investigadores, ao perguntar novamente sobre objetos que deveriam ser removidos, TH recebe orientação semelhante: “Deixa isso, tá doido? Larga isso aí, seu doido.”
A PF afirma que os diálogos reforçam que Bacellar alertou TH Joias sobre a operação e o orientou a destruir ou retirar materiais do imóvel antes do cumprimento dos mandados.
Organização de mudança e apagamento de dados
Após o aviso, TH não apenas retirou itens da residência, mas também apagou completamente o conteúdo do celular e passou a utilizar um aparelho novo. A investigação aponta que o uso do caminhão-baú foi mobilizado para retirar diversos objetos de casa antes da chegada das equipes.
O procurador-geral de Justiça do Rio, Antonio José Campos Moreira, havia afirmado, no dia da operação, que houve dificuldade para localizar o deputado, que havia deixado o condomínio em situação que sugeria rápida saída e eliminação de vestígios.
Como ocorreu a prisão de Bacellar
Bacellar foi detido na Superintendência da PF no Rio, na Praça Mauá, após ter sido convidado pelo superintendente Fábio Galvão para uma reunião. Ao chegar ao prédio, recebeu voz de prisão e teve o celular apreendido. A ordem foi expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, a conduta de Bacellar integra um conjunto de ações que teriam comprometido o andamento da Operação Zargun, voltada à investigação de um esquema envolvendo tráfico de drogas, armas e corrupção ligado ao Comando Vermelho (CV) e a agentes públicos.
Até a última atualização, nem a Alerj nem a defesa de Bacellar haviam se manifestado.
Contexto das investigações envolvendo TH Joias
TH Joias foi preso em setembro em duas operações simultâneas: Zargun, conduzida pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF), e Bandeirante, do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Ele é acusado de atuar em esquemas de negociação de armas, acessórios e drogas e de utilizar o mandato para nomear aliados ligados ao Comando Vermelho.
Na Operação Zargun, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) autorizou 18 mandados de prisão preventiva, 22 mandados de busca e apreensão e o sequestro de R$ 40 milhões em bens.
Ações paralelas e próximos passos
Além da prisão preventiva de Bacellar, Moraes determinou oito mandados de busca e apreensão, incluindo o gabinete do presidente da Alerj. A PF deve ouvir novamente TH Joias, que, segundo investigadores, pode detalhar a extensão do suposto vazamento.
O STF analisará as próximas medidas cautelares enquanto avançam as investigações sobre a interferência na Operação Zargun.