Andressa Anholete/STF

A controvérsia envolvendo o ministro Dias Toffoli e sua permanência como relator do inquérito do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos contornos na quarta-feira (11), após a Polícia Federal entregar ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um relatório pericial do celular de Daniel Vorcaro, dono do Master investigado por fraudes financeiras bilionárias.

O documento da PF, que analisa diálogos em que Toffoli é citado, menciona conversas sobre pagamentos ao Resort Tayayá, propriedade com a qual o ministro e sua família mantiveram vínculos societários. Embora a Polícia Federal não tenha formalmente pedido a suspeição de Toffoli, o relatório cita artigos do regimento interno do STF sobre casos de impedimento, além de fazer referência ao artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura, que trata de situações envolvendo indícios de crimes cometidos por magistrados.

Segundo esse dispositivo legal, quando houver indício da prática de crime por parte de magistrado durante investigação, a autoridade policial deve remeter os autos ao tribunal competente para prosseguimento das apurações. Investigadores que acompanham o caso afirmam que a PF apura se houve pagamentos a Toffoli relacionados a Vorcaro e ao Master, embora o conteúdo específico das menções encontradas no celular não tenha sido detalhado publicamente.

Nos bastidores do STF, é grande a pressão para que o ministro abra mão da relatoria. Investigadores consideram que sua situação ficou insustentável e fazem um alerta: o material colhido até aqui tem potencial para, nas palavras deles, “resetar” a República. Uma corrente no Supremo já defendia, desde o ano passado, o afastamento de Toffoli do caso, temendo que o avanço das investigações arrastasse a Corte para uma crise sem precedentes — cenário que agora parece se confirmar.

Em nota divulgada na quarta à noite, Toffoli classificou o conteúdo do relatório como “ilações” e argumentou que a Polícia Federal não tem legitimidade para pedir declaração de suspeição por não ser parte no processo, conforme o artigo 145 do Código de Processo Civil. O ministro afirmou que apresentará resposta ao presidente da Corte.

Paralelamente, a Procuradoria Geral da República (PGR) mudou de posição sobre o caso. Após inicialmente dizer que não haveria motivos para impedimentos, a PGR agora requereu o relatório da Polícia Federal sobre as citações a Toffoli. Fontes que acompanham a investigação avaliam que o ministro conta com a PGR para atestar que não há irregularidades no que foi levantado pela polícia.

Ligações com o Master

As conexões entre a família Toffoli e estruturas ligadas ao Banco Master vêm à tona desde o ano passado. O ministro admitiu a interlocutores, segundo reportagens da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo, que recebeu pagamentos de dividendos da Maridt Participações, empresa da qual seria um dos donos ao lado dos irmãos José Carlos e José Eugênio.

A Maridt teve participação no Resort Tayayá, propriedade à beira de uma represa em Ribeirão Claro, no Paraná. Em 2021, os irmãos de Toffoli venderam, por intermédio da empresa, parte das cotas do resort por mais de R$ 3 milhões para o fundo Arleen, controlado pela Reag, administradora de investimentos ligada ao Banco Master.

Segundo o Banco Central, Reag e Master montaram um esquema de operações combinadas para circulação de dinheiro entre fundos previamente organizados. Em agosto de 2025, a Reag foi alvo de megaoperação contra lavagem de dinheiro do PCC, a Operação Carbono Oculto.

A família Toffoli e o fundo Arleen permaneceram como sócios do resort de setembro de 2021 até 2025. A família vendeu sua participação em fevereiro, e o fundo deixou a sociedade em julho.

Outras situações levantaram questionamentos sobre a atuação de Toffoli no caso. Em novembro de 2025, o ministro viajou para a final da Libertadores em Lima, no Peru, no mesmo voo particular que um advogado que defende diretor do Banco Master. Em janeiro deste ano, o procurador-geral Paulo Gonet arquivou representação de deputados do Novo e PL que pediam o afastamento de Toffoli.

O espantoso, na avaliação de observadores do caso, é que mesmo admitindo os vínculos societários e o recebimento de dividendos da Maridt, o ministro Dias Toffoli não se declare impedido de continuar como relator do caso Master; inquérito que, paradoxalmente, chegou ao STF por determinação dele próprio, após pedido dos advogados de Daniel Vorcaro.

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