
Donald Trump completa nesta terça-feira (20) exatos 12 meses desde seu retorno à Presidência dos EUA, consolidando um segundo mandato que abalou estruturas dentro e fora do país. Sem freios e imprevisível, o republicano implementou uma agenda radical que desafiou o multilateralismo construído após a Segunda Guerra Mundial, promoveu protecionismo econômico extremo e executou ações extrajudiciais ao redor do globo, desenhando-se como um “presidente do mundo” diante de adversários e aliados.
O ano foi marcado por gestos de força e simbolismo. A demolição da ala Leste da Casa Branca para dar lugar a um salão de baile, com orçamento estratosférico de US$ 300 milhões, ilustra bem o espírito de transformação pela força que caracterizou os primeiros 365 dias de “Trump 2”. O republicano bateu o recorde histórico de ordens executivas assinadas (225 ao todo, superando a marca de Franklin D. Roosevelt vigente desde 1933). Essas medidas atingiram as mais variadas áreas, desde o banimento de canudos de papel até o fim de políticas de gênero e diversidade.
Trump também entrou automaticamente para a história como o primeiro condenado criminalmente a assumir a Presidência dos EUA e, aos 78 anos e sete meses, o mais velho a tomar posse. Seu governo foi abraçado pelas big techs, especialmente por Elon Musk, o homem mais rico do mundo, que fez campanha ferrenha pelo republicano e assumiu o comando do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). Na Casa Branca, Musk foi responsável pela demissão de milhares de funcionários públicos, dezenas de cortes de financiamento a agências federais e pelo fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), decisão duramente criticada internacionalmente por encerrar toda a ajuda humanitária americana no mundo.
Economia e guerras tarifárias
No campo econômico, Trump implementou uma das mais agressivas políticas protecionistas da história recente. Em abril, anunciou subitamente um aumento nas tarifas de importação sobre produtos de 185 países, algumas chegando a 50%, sob o argumento de defender o setor produtivo americano. Economistas questionaram os cálculos e a efetividade da medida, mas o presidente seguiu em frente com o que ficou conhecido como “tarifaço global”.
O Brasil inicialmente conseguiu tarifas mais brandas, de 10%, mas meses depois sofreu um adicional de 40% sobre produtos nacionais. A justificativa de Trump surpreendeu: alegou que o ex-presidente Jair Bolsonaro sofria perseguição de autoridades brasileiras. A crise só foi resolvida após uma reaproximação diplomática que culminou em reunião entre Trump e o presidente Lula no fim de outubro. Em novembro, a Casa Branca anunciou a retirada progressiva do tarifaço sobre a maioria das exportações brasileiras, incluindo carne, café e aço.
A obsessão de Trump com a independência do FED (o Banco Central americano) e a pressão por cortes na taxa de juros criaram outro imbróglio político. A tensão contribuiu para dificultar a aprovação da lei orçamentária de 2026, resultando na maior paralisação dos serviços públicos da história americana: 43 dias de shutdown, superando os 35 dias do próprio governo Trump entre 2018 e 2019. A suspensão afetou salários de servidores e gerou caos administrativo até que um acordo foi costurado em novembro. “Meu governo não será extorquido novamente pelos Democratas”, declarou Trump após assinar o fim da paralisação.
Imigração e repressão interna
A promessa de campanha mais emblemática de Trump foi a expulsão de todos os imigrantes em situação irregular. Embora não tenha cumprido integralmente a meta, o presidente colocou nas ruas mais de 20 mil agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Antes dedicados à vigilância de fronteiras, passaram a caçar e prender imigrantes, inclusive alguns em processo de regularização. O resultado foi dramático: 605 mil deportados até dezembro, além de 1,9 milhão de “autodeportações” voluntárias – pessoas que deixaram o país por medo da repressão.
As ações do ICE geraram revolta e tragédias. A morte de uma cidadã americana baleada por um agente de imigração em Minnesota desencadeou onda de protestos e batalha jurídica. Com o pretexto de combater imigração ilegal e tráfico de drogas, Trump autorizou intervenções federais em diversas cidades onde foi derrotado nas eleições de 2024. Capitais como Los Angeles, Washington, Chicago e Minneapolis receberam agentes federais sob protestos, executando prisões arbitrárias e combatendo manifestações.
Logo no primeiro dia de volta à Casa Branca, Trump concedeu perdão presidencial para cerca de 1.500 acusados pelo ataque ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021, numa das mais notórias demonstrações de desprezo ao sistema judiciário americano. O gesto consolidou o clima de vingança após a derrota nas urnas em 2020 para Joe Biden – derrota que o republicano ainda não reconhece.
Outro alvo sistemático foi a imprensa. Trump moveu processos pedindo até R$ 79 bilhões em reparação por reportagens críticas, como as que mostraram sua relação com Jeffrey Epstein. No fim de março, divulgou comunicado ameaçando punir advogados e escritórios que se envolvessem em casos que considerasse “frívolos” contra sua gestão. Universidades como Harvard e Columbia sofreram cortes de repasses e investigações sob pretextos variados, dos protestos pró-Palestina à admissão de alunos estrangeiros.
Política externa e expansionismo
Na área internacional, Trump ressuscitou a Doutrina Monroe, tratando a América Latina como “quintal” dos EUA. De setembro a dezembro de 2025, militares americanos bombardearam embarcações no Caribe e Pacífico alegando suspeita de tráfico de drogas, matando mais de 100 pessoas. A ONU classificou as ações como “execuções extrajudiciais”. Em agosto, Trump ordenou ofensiva para cercar a Venezuela, que culminou, já em janeiro, na invasão do território venezuelano e captura de Nicolás Maduro.
O apoio a Israel se intensificou dramaticamente. Benjamin Netanyahu foi o líder com quem Trump mais se encontrou (cinco reuniões em 2025). Na primeira, causou espanto ao sugerir uma “Riviera do Oriente Médio” em Gaza. Oito meses depois, mediou um cessar-fogo frágil, incapaz de esconder violações aos palestinos. Em julho, Trump ordenou ataque a centrais nucleares do Irã, encerrando conflito de 12 dias que deixou quase mil mortos.
A relação com a Rússia oscilou entre elogios e críticas a Putin. Os dois se encontraram no Alasca em agosto para discutir paz na Ucrânia, mas o conflito segue sem solução. Já o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky sofreu ataques constantes de Trump, chegando a deixar reunião na Casa Branca visivelmente humilhado em fevereiro.
Nos últimos meses, Trump demonstrou interesse em anexar a Groenlândia, território dinamarquês, alegando importância estratégica e ameaçando uso de força militar. A pressão sobre aliados históricos da OTAN gerou alerta na Europa.
Com eleições legislativas marcadas para 2026, ano do 250º aniversário da independência americana, resta saber se o Congresso conseguirá conter a ambição presidencial que marcou este primeiro ano explosivo.