
O chamado “carro voador” brasileiro realizou seu primeiro voo-teste em escala real nesta semana, em um ensaio não tripulado conduzido no centro de testes da Embraer em Gavião Peixoto, interior de São Paulo. O protótipo é um veículo elétrico de decolagem e aterrissagem vertical (eVTOL) desenvolvido pela Eve Air Mobility, empresa controlada pela Embraer voltada à mobilidade aérea urbana.
O teste marca o início oficial da campanha de voos de um projeto que integra a estratégia da indústria aeronáutica brasileira para disputar espaço em um mercado global ainda em formação, voltado ao transporte aéreo de curta distância em áreas urbanas e metropolitanas.
O que foi testado no voo inaugural
O voo teve caráter técnico e buscou validar sistemas considerados centrais para a aeronave, como o controle digital de voo, o funcionamento integrado dos motores elétricos e dos rotores responsáveis pela sustentação vertical, além da estabilidade do protótipo em voo controlado.
A aeronave permaneceu no ar por um curto período, suficiente para permitir a coleta de dados sobre desempenho, resposta dos sistemas e comportamento estrutural. Segundo a empresa, os dados obtidos serão usados para ajustes e refinamentos nas próximas fases de teste.
Tecnologia e características do eVTOL
O eVTOL brasileiro foi projetado para operar com propulsão totalmente elétrica, o que reduz ruído e emissões em comparação com helicópteros convencionais. O modelo prevê capacidade para até quatro passageiros e um piloto, com alcance estimado para deslocamentos urbanos e interurbanos curtos.
A proposta é atender trajetos como ligações entre centros financeiros, aeroportos e regiões metropolitanas próximas, com foco em tempo de deslocamento reduzido e integração com outros modais de transporte.
Encomendas e interesse do mercado
A Eve Air Mobility já informou ter acumulado cerca de 3 mil encomendas e cartas de intenção de clientes em diferentes países, incluindo operadores de transporte aéreo e empresas interessadas em serviços de mobilidade urbana.
O volume de pedidos posiciona o projeto brasileiro entre os mais avançados do setor, que reúne fabricantes tradicionais e startups apoiadas por fundos de investimento e grandes grupos industriais.
Próximas etapas de testes e certificação
Após o voo inicial, a empresa dará início a uma série progressiva de testes, que inclui dezenas de voos com diferentes objetivos técnicos, como avaliação da transição entre voo vertical e horizontal, autonomia energética, redundância de sistemas e comportamento em diferentes condições operacionais.
O cronograma prevê a construção de múltiplos protótipos conformes, destinados especificamente ao processo de certificação. A Eve trabalha com a expectativa de obter certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) até 2027, em paralelo à busca de homologações junto a autoridades internacionais.
Investimentos e apoio institucional
O desenvolvimento do eVTOL conta com investimentos privados e apoio institucional, incluindo financiamento público voltado à inovação tecnológica e à indústria aeronáutica. A iniciativa faz parte de um esforço para posicionar o Brasil como um dos polos de desenvolvimento da mobilidade aérea urbana.
A empresa também mantém parcerias com operadores e autoridades para discutir aspectos regulatórios, integração ao espaço aéreo e infraestrutura necessária para operação comercial.
Desafios além do voo
Apesar do avanço técnico, especialistas apontam que a consolidação do transporte por eVTOLs depende de fatores que vão além da aeronave. Entre eles estão a criação de infraestrutura adequada, como vertiportos, regras para tráfego aéreo em baixa altitude, viabilidade econômica das operações e aceitação pública do novo modal.
O primeiro voo-teste do “carro voador” brasileiro representa um marco inicial nesse processo. A partir agora, o projeto entra em uma fase mais longa e complexa, na qual os resultados dos testes e o avanço regulatório serão determinantes para definir quando e em que escala a tecnologia poderá chegar ao uso comercial.