Rovena Rosa/Agência Brasil

Durante boa parte do mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos), as privatizações foram apresentadas como o principal símbolo de sua gestão. A concessão da Sabesp, a transferência de linhas da CPTM à iniciativa privada e a defesa de um Estado menos presente na prestação de serviços públicos passaram a representar a marca administrativa do governador. À medida que a campanha eleitoral de 2026 ganha forma, no entanto, essa mesma agenda começa a se transformar em um dos principais pontos de vulnerabilidade do Palácio dos Bandeirantes.

A estratégia já é perceptível no campo da oposição. A coordenação da campanha de Fernando Haddad (PT) definiu as privatizações como um dos três eixos centrais da disputa, ao lado dos efeitos do tarifaço imposto pelo governo Donald Trump e do discurso de defesa da soberania nacional. O objetivo é estadualizar o debate, associando problemas recentes na prestação de serviços à política de concessões adotada pelo governo paulista.

O principal alvo deverá ser a Sabesp. A campanha petista pretende explorar episódios de desabastecimento registrados em municípios do interior e da Região Metropolitana para questionar se a privatização produziu a eficiência prometida. Paralelamente, o PT pretende utilizar o impacto econômico das tarifas americanas sobre setores importantes da economia paulista para cobrar de Tarcísio uma postura mais firme na defesa dos interesses do Estado.

No transporte sobre trilhos, porém, a pressão política pode ser ainda maior. A greve dos ferroviários da CPTM, convocada justamente contra as privatizações, ocorre poucos dias após uma sequência de falhas nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, administradas pela concessionária Trivia Trens. Depois de problemas operacionais, incluindo um apagão elétrico que obrigou passageiros a caminhar pelos trilhos e provocou um princípio de incêndio, a Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) suspendeu temporariamente a operação da empresa e devolveu a gestão das linhas à CPTM.

O episódio ampliou o desgaste da política de concessões. Além da suspensão da operação, o Ministério Público instaurou um inquérito civil para investigar a atuação da concessionária, da CPTM, da Artesp e do próprio governo estadual. Os ferroviários reivindicam a reversão das concessões ou, ao menos, garantias de manutenção dos empregos durante o processo de transição.

Esse ambiente coincide com uma mudança na percepção da população. Pesquisa Datafolha mostra que a rejeição às privatizações aumentou desde o início da atual gestão. Hoje, 56% dos paulistas são contrários à privatização das linhas de metrô, nove pontos percentuais acima do registrado em 2023. No caso da CPTM, 53% rejeitam a transferência das linhas para a iniciativa privada, enquanto o apoio caiu de 49% para 39% no mesmo período.

Os números sugerem que o debate sobre concessões poderá extrapolar o campo técnico e assumir papel central na disputa eleitoral. Para Tarcísio, o desafio será preservar a narrativa de que a participação da iniciativa privada melhora a qualidade dos serviços, mesmo diante de episódios recentes que alimentam críticas da oposição. Para Haddad, a aposta é transformar falhas na operação ferroviária e questionamentos sobre a Sabesp em exemplos de que a promessa de eficiência não se confirmou.

Se conseguir conectar esses episódios ao cotidiano dos eleitores, a oposição poderá impor à campanha um debate predominantemente estadual, deslocando parte da polarização nacional. Em uma eleição tradicionalmente influenciada pela disputa presidencial, o desempenho de serviços essenciais como transporte e abastecimento de água pode se tornar um dos fatores decisivos na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes.

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