ICE
Scott Olson / Getty Images

A morte de uma mulher durante uma operação do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), em Minneapolis, desencadeou uma onda de protestos em diversas cidades americanas e aprofundou o embate entre governos locais e o Executivo federal sobre o alcance e os métodos da política migratória.

A vítima, Renee Nicole Good, de 37 anos, foi baleada por um agente federal na quarta-feira (7) durante uma ação de fiscalização migratória. O episódio ocorreu quando agentes tentavam abordar um veículo em uma operação que, segundo o Departamento de Segurança Interna, tinha como alvo pessoas com ordem de deportação. Renee não era o alvo principal da ação.

O que ocorreu na operação

De acordo com a versão oficial apresentada pelo governo federal, o agente atirou após a motorista tentar avançar com o carro contra os agentes, o que caracterizaria legítima defesa. No entanto, imagens gravadas por testemunhas mostram o momento em que o agente dispara enquanto o veículo se move lentamente, levantando dúvidas sobre a proporcionalidade da reação.

O tiroteio ocorreu em uma rua residencial do sul de Minneapolis pouco depois de Renee ter deixado seu filho de 6 anos na escola. Imagens gravadas por testemunhas mostraram a abordagem de agentes antes de um oficial disparar contra o carro em movimento.

Segundo informações médicas confirmadas posteriormente, Renee foi atingida na cabeça e morreu ainda no local. A BBC norte-americana informou que não havia indícios de que a mulher estivesse armada. Um parente disse que a família está em luto e que divulgará um comunicado no momento oportuno.

Disputa sobre a investigação

O caso abriu uma disputa institucional imediata. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, afirmou que o vídeo contradiz a versão apresentada pelo ICE e classificou a ação como “uso imprudente da força”. Ele exigiu uma investigação independente e criticou a atuação de agentes federais sem coordenação com autoridades locais.

O governo federal, por sua vez, determinou que a investigação fique sob responsabilidade do FBI, o que gerou críticas do estado de Minnesota, que reivindicava a participação do órgão estadual de apuração criminal. Para autoridades locais, a exclusão do estado do processo compromete a transparência.

Reação política e institucional

O governador de Minnesota, Tim Walz, classificou o episódio como “evitável” e criticou o aumento de operações federais sem diálogo com autoridades estaduais e municipais, afirmando que isso acentua o risco de confrontos e mina a confiança da população nas instituições.

Parlamentares democratas exigiram a suspensão das ações do ICE na região e pediram revisão das diretrizes de uso da força para operações de fiscalização, ressaltando que a abordagem deve ser compatível com padrões de proporcionalidade e proteção de civis.

O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, foi mais incisivo. Frey afirmou que a morte de Renee Nicole Good, uma mãe de três filhos que, segundo familiares, passava pelo local para apoiar vizinhos e não estava envolvida em atos violentos, não foi inesperada ou chocante diante do padrão de operações do ICE.

Em um artigo de opinião publicado no The New York Times, o prefeito vinculou o episódio a uma sequência de ações federais na cidade e relatou que a crise atual ecoa a resposta federal à morte de George Floyd em 2020, quando, segundo ele, a administração na época “incentivou a violência e negou auxílio emergencial”. Frey também criticou a narrativa oficial do governo federal, afirmando que a descrição de que Good teria tentado usar o veículo como arma representa uma “demonização da vítima” e alimenta desconfiança nas instituições.

Ele chegou a dizer que não houve falta de aviso sobre possíveis efeitos colaterais das operações: “Nós temíamos este momento desde o início da presença do ICE em Minneapolis”, escreveu, apontando que agentes federais vinham realizando prisões em bibliotecas e centros comunitários e que o tiroteio foi o resultado de uma escalada de táticas que ele considera perigosas e descoordenadas.

Protestos e mobilização nacional

As manifestações começaram em Minneapolis poucas horas após a morte de Renee e rapidamente se espalharam para Nova York, Los Angeles, Chicago, San Francisco, Seattle e Washington. Em várias cidades, os protestos reuniram centenas de pessoas, com palavras de ordem contra o ICE e críticas diretas à política migratória federal.

Houve registros de bloqueios de ruas, vigílias em memória da vítima e atos em frente a prédios federais. Em algumas localidades, autoridades reforçaram o policiamento, mas não houve confirmação de confrontos graves.

Foco na atuação do ICE

Veículos de imprensa destacaram que o episódio ocorre em meio a uma intensificação das operações do ICE, com aumento do número de agentes em campo e ampliação de ações em cidades governadas por democratas. Especialistas apontam que a estratégia federal tem elevado a tensão com comunidades locais e reacendido debates sobre racismo institucional, imigração e limites da autoridade federal.

O caso também revive comparações com protestos anteriores contra violência policial nos Estados Unidos, ainda que, desta vez, o foco esteja em agentes federais de imigração, cuja atuação historicamente gera menos mecanismos de controle externo.

Enquanto a investigação avança, o episódio já se consolidou como um novo ponto de fratura na política interna dos EUA, com potencial de repercussão nacional e impacto direto no debate eleitoral e migratório.

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