
O anúncio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de que rompeu politicamente com o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), aprofundou a crise de confiança entre o governo Lula e o Legislativo. Segundo Motta, “não há mais interesse em manter qualquer tipo de relação” com o petista. Lindbergh reagiu dizendo que a postura é “imatura” e atribuiu ao presidente da Câmara a responsabilidade pelo desgaste com o Planalto.
O rompimento formalizado no dia 24 de novembro não surgiu de um episódio isolado, mas de uma sequência de atritos internos que se intensificaram nos últimos dias. O estopim foi a reação de Motta a uma série de postagens nas redes sociais que associaram a Câmara à saída do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) para os Estados Unidos.
A avaliação do presidente da Casa é que influenciadores ligados ao PT tentaram responsabilizá-lo pela situação, interpretada por aliados como uma campanha de desgaste. Interlocutores afirmam que Motta atribuiu a Lindbergh e ao deputado Rogério Correia influência sobre essa mobilização digital, embora o líder petista negue qualquer participação.
Correia chegou a publicar conteúdo relacionando a Câmara ao episódio, mas recuou após contato telefônico de Motta. Ramagem, condenado pelo Supremo por tentativa de golpe, teve prisão decretada quando já estava fora do país, o que ampliou a repercussão do caso e tensionou o ambiente político. Para integrantes da Câmara, a associação entre a fuga e a Casa atingiu diretamente a presidência da instituição e acelerou o rompimento.
Caso Ramagem e acúmulo de tensões
A crise, porém, vinha se formando há meses. Lindbergh tem sido uma das vozes mais atuantes na defesa do governo na Câmara e criticou abertamente decisões de Motta, como a condução da PEC da Blindagem, a derrubada do decreto sobre o IOF e a escolha de relatorias consideradas estratégicas para o Executivo. Do outro lado, a direção da Casa avalia que o petista tem atuado como se fosse líder do governo, extrapolando o papel de líder de bancada e gerando atritos em reuniões internas. Parlamentares do centro relatam episódios de tensão com o petista em debates recentes.
O desgaste cresceu com a escolha do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) como relator do projeto de lei antifacção, enviado pelo governo. A indicação, vista pelo Planalto como sinalização política adversa, ganhou centralidade porque Derrite apresentou um texto que divergiu da proposta original do Executivo. O governo orientou voto contrário e foi derrotado em plenário, o que ampliou o sentimento de exposição entre integrantes do PT e dificultou a reconstrução de confiança entre governo e direção da Casa.
Governabilidade sob pressão
O racha entre Motta e Lindbergh ocorre em um momento em que o Planalto enfrenta desafios simultâneos no Congresso. No Senado, a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) contrariou a preferência da cúpula da Casa e desencadeou reação imediata do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que passou a articular contra a aprovação do indicado. A combinação de tensões nas duas Casas reforça a percepção de fragilidade da articulação política do governo.
Na Câmara, a crise afeta diretamente a governabilidade. Motta controla o ritmo das votações, a distribuição de relatorias e a pauta do plenário. Esse poder de agenda se torna ainda mais relevante em um cenário em que líderes do centrão apontam acordos pendentes, baixa previsibilidade fiscal e dificuldades para aprovar matérias de impacto orçamentário. Integrantes da base reconhecem que o ambiente exige reorganização interna e reconstrução de pontes com a direção da Casa para evitar novas derrotas.
O clima de distanciamento já afeta a pauta legislativa. A avaliação entre parlamentares é que a relação com o governo tende a ficar mais imprevisível, especialmente em votações de caráter fiscal e na definição de relatorias sensíveis. A depender da evolução do impasse, aliados admitem que o Planalto poderá enfrentar maior dificuldade para aprovar projetos prioritários e manter ritmo de tramitação em temas estratégicos.
Nos bastidores, líderes ponderam que a recomposição política dependerá da disposição de Motta para retomar diálogo e do papel que Lindbergh adotará após o rompimento. Até que esses movimentos ocorram, a expectativa na Câmara é que a crise siga influenciando o ambiente interno e condicionando a articulação do governo nas próximas semanas.