O governador de Goiás e único pré-candidato oficial à presidência, Ronaldo Caiado | Foto: Reprodução/ronaldocaiado.com

O campo da direita brasileira vive um momento de desorganização política e ideológica desde a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. O que deveria se consolidar como um novo bloco conservador em torno da federação entre União Brasil e Progressistas (PP) transformou-se em um mosaico de interesses regionais, disputas pessoais e contradições em relação ao governo Lula.

Prometida como a maior aliança partidária do Congresso, a federação União Progressista (União + PP) foi lançada oficialmente em abril de 2025, mas ainda não foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Divergências sobre comando e estratégia têm paralisado o processo. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), único pré-candidato à Presidência da futura federação, acusa o presidente do PP, Ciro Nogueira, de articular a união apenas para fortalecer uma eventual candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). “Se você monta o maior time do país, é pra ser campeão ou pra ser vice-campeão?”, ironizou Caiado, expondo o impasse.

Desembarque contraditório do governo

Ao mesmo tempo em que PP e União Brasil anunciaram “desembarque” do governo, ministros das duas legendas resistem em deixar seus cargos. Celso Sabino (Turismo) e André Fufuca (Esporte) decidiram permanecer, o que levou os partidos a abrir processos disciplinares internos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com desdém à pressão dos dirigentes e afirmou que não irá “implorar” apoio político. “Vai estar comigo quem quiser estar comigo. Não sou daqueles que compram deputado. E boa sorte a quem quiser ir para o outro lado, porque a extrema-direita não voltará a governar este país”, disse, em entrevista à TV Mirante, no Maranhão.

A postura do presidente reforça sua leitura de que o enfraquecimento do bolsonarismo e a divisão do Centrão abrem espaço para que o governo mantenha estabilidade política mesmo com uma base formalmente menor.

Rachas regionais e o caso Moro

As tensões se estendem às disputas estaduais. No Paraná, o senador Sergio Moro (União-PR) tenta se viabilizar como candidato ao governo, mas enfrenta resistência dentro da federação. O PP lançou a ex-governadora Cida Borghetti como pré-candidata ao Palácio Iguaçu, descartando apoiar o ex-juiz, que ainda lida com risco de condenação no Supremo Tribunal Federal. A crise se aprofundou com a filiação da jornalista Cristina Graeml ao União, vista por aliados como possível substituta de Moro caso ele fique inelegível.

Enquanto o União Brasil tenta preservar sua identidade liberal e o PP busca manter influência institucional, a federação já mostra sinais de desgaste antes mesmo de existir oficialmente. Dirigentes como Antonio Rueda, do União, e Ciro Nogueira, do PP, acumulam denúncias e disputas internas, enquanto lideranças parlamentares, como Arthur Lira e Davi Alcolumbre, preservam seus espaços no governo.

O resultado é um bloco fragmentado, dividido entre pragmatismo e nostalgia bolsonarista. Em meio a um processo de reacomodação da direita, Lula observa à distância, apostando na desarticulação dos antigos adversários para consolidar sua governabilidade.

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