
Uma nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (8), revelou um aumento significativo na rejeição popular à ideia de anistiar ou reduzir penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. O levantamento, realizado entre os dias 2 e 5 de outubro, mostra que 47% dos entrevistados são contra a anistia, um crescimento em relação aos 41% registrados anteriormente, e 52% rejeitam a redução das penas; números que vêm fortalecendo a resistência no Congresso à aprovação de projetos que caminhem nessa direção.
Na terça-feira (7), apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) realizaram uma caminhada esvaziada na Esplanada dos Ministérios, com a presença da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. O ato foi marcado por críticas aos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), além de ataques ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, chamado de “miserável” pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Os manifestantes voltaram a defender a “anistia ampla, geral e irrestrita”, mas o gesto teve pouco impacto político e acabou sendo visto como contraproducente, especialmente após a nova pesquisa indicar que o sentimento popular caminha na direção oposta.
Articulação travada na Câmara
No Congresso, o debate sobre o tema está cada vez mais travado. O projeto de lei da Dosimetria, relatado pelo deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que busca reduzir as penas dos condenados pelos atos antidemocráticos, inclusive as de Bolsonaro, perdeu força nas últimas semanas. Paulinho chegou a afirmar, após reunião com Hugo Motta, que pretendia votar o texto na próxima terça-feira (14), mas as chances de isso ocorrer diminuem a cada dia.
O principal obstáculo é a falta de sintonia entre Câmara e Senado. Após a rejeição da PEC da Blindagem — proposta que ampliava a proteção parlamentar contra ações judiciais — por parte dos senadores, a confiança entre as Casas ficou abalada. Deputados afirmam que não pretendem votar o projeto da Dosimetria sem um aceno prévio de Alcolumbre, para evitar novo desgaste político.
Mesmo assim, Paulinho tenta costurar apoio. O relator já se reuniu com figuras da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do PP, Ciro Nogueira, em busca de um texto de consenso.
Números que esfriam a anistia
Os números da pesquisa Quaest ajudam a explicar o impasse político. Além dos 47% contrários à anistia, 35% dos entrevistados disseram ser a favor da medida para todos, incluindo Bolsonaro, e 8% defenderam o perdão apenas para os manifestantes. No caso do PL da Dosimetria, 52% se mostraram contrários, 37% a favor e 11% não souberam responder. Já entre os que conhecem a PEC da Blindagem, 63% declararam ser contra.
Com o avanço da rejeição popular e o enfraquecimento das manifestações pró-anistia, o tema, que parecia caminhar para o plenário, voltou à estaca zero. A depender do humor do Congresso e das ruas, a anistia ampla e irrestrita pode ter saído definitivamente do radar político.