
A Argentina formalizou na terça-feira (17) sua saída da Organização Mundial da Saúde (OMS), tornando-se o segundo país a abandonar o organismo após decisão semelhante adotada pelos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump. A medida, confirmada pelo governo de extrema direita de Javier Milei, ocorre em um momento de deterioração de indicadores de saúde no país, marcado pela queda da cobertura vacinal e pelo aumento do risco de retorno de doenças evitáveis.
A decisão argentina segue a linha adotada por Trump, que iniciou o processo de retirada dos EUA da OMS ainda no primeiro dia de seu novo mandato, alegando falhas na condução da pandemia de Covid-19, falta de independência da organização e desequilíbrio nas contribuições financeiras. No caso argentino, o governo também justificou a saída com base em “profundas diferenças” com o organismo internacional, especialmente em relação às diretrizes adotadas durante a pandemia e à defesa de maior autonomia nas políticas sanitárias.
A formalização da saída ocorre em um contexto interno de alerta sanitário. Dados de entidades médicas e do próprio Ministério da Saúde argentino indicam que a cobertura vacinal infantil caiu de patamares próximos a 90% em anos anteriores para níveis próximos de 50% em diversas imunizações essenciais. No caso da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, a cobertura chegou a cerca de 46% em 2024, muito abaixo dos 95% recomendados para garantir imunidade coletiva.
Consequências
A queda tem efeitos diretos. Especialistas já identificam o retorno de doenças antes controladas, como sarampo, hepatite A e coqueluche, além de registros de mortes infantis associadas à baixa cobertura vacinal. A Sociedade Argentina de Pediatria também aponta aumento de casos de tuberculose e outras doenças infecciosas, em um cenário que reverte avanços acumulados ao longo de décadas.
Além do recuo nas campanhas de imunização, o país enfrentou em 2024 a maior epidemia de dengue de sua história, com mais de 200 mil casos registrados apenas nas primeiras semanas do ano, evidenciando fragilidades na prevenção e no controle epidemiológico.
Especialistas atribuem parte desse cenário à combinação de fatores estruturais e conjunturais. Entre eles, a crise econômica, dificuldades de acesso da população aos serviços de saúde, redução de campanhas públicas e cortes orçamentários. Relatórios indicam que o orçamento nacional de saúde sofreu redução significativa, com impacto sobre programas de vacinação e redes de atendimento.
Fim da cooperação com a Argentina
A saída da OMS ocorre em um momento em que a cooperação internacional é considerada central para monitoramento de doenças, acesso a insumos e resposta coordenada a emergências sanitárias. Embora o governo argentino afirme que manterá acordos bilaterais e regionais, analistas avaliam que o afastamento pode limitar o acesso a redes globais de vigilância epidemiológica e troca de informações em tempo real.
O caso argentino se insere em um cenário mais amplo de alerta global. A queda da cobertura vacinal, associada à desinformação e à fragilização de políticas públicas, tem levado ao ressurgimento de doenças em diferentes regiões do mundo. A ruptura de mecanismos multilaterais de cooperação, como a OMS, amplia esse risco ao reduzir a capacidade de resposta conjunta diante de surtos e epidemias.
Em um ambiente de alta circulação internacional de pessoas e vírus, especialistas apontam que a combinação entre menor imunização, retração do investimento público e isolamento institucional pode acelerar a disseminação de doenças evitáveis, recolocando no centro do debate a importância de políticas públicas contínuas e da articulação global em saúde.