
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acendem um alerta sobre a saúde mental de adolescentes brasileiros. Em 2024, três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram se sentir tristes sempre ou na maior parte do tempo, enquanto proporção semelhante relatou já ter tido vontade de se machucar de propósito.
O levantamento ouviu mais de 118 mil alunos em todo o país e aponta um quadro amplo de sofrimento emocional. Além da tristeza recorrente, 42,9% dos adolescentes disseram se sentir irritados ou nervosos com frequência, e 18,5% afirmaram pensar que “a vida não vale a pena ser vivida”. Para especialistas, os números indicam não apenas a persistência de problemas de saúde mental, mas também a necessidade de respostas estruturais.
A psicóloga Danielle Monteiro, à Agência Brasil, destaca que, embora alguns indicadores tenham melhorado em relação a 2019, os resultados ainda são elevados. Segundo ela, os níveis observados superam parâmetros encontrados em estudos internacionais sobre ansiedade e depressão, o que reforça a gravidade do cenário.
As desigualdades de gênero aparecem como um dos pontos mais críticos. Entre as meninas, 41% relataram tristeza frequente, contra 16,7% dos meninos. A vontade de se machucar também é mais que o dobro entre alunas (43,4%) em comparação aos colegas (20,5%). O sentimento de que a vida não vale a pena atinge 25% das meninas, ante 12% dos meninos.
Outro fator que agrava esse quadro é o ambiente escolar. Quase 40% dos estudantes afirmaram já ter sofrido bullying, sendo que 27,2% passaram por episódios repetidos. A prática, segundo o IBGE, tem se tornado mais persistente, com aumento nos casos recorrentes em relação à pesquisa anterior.
As agressões estão frequentemente ligadas à aparência física, como rosto, cabelo e corpo, além de fatores como raça e gênero. Meninas também aparecem como principais vítimas: 43,3% delas já sofreram bullying, contra 37,3% dos meninos. Em paralelo, 16,6% dos alunos relataram ter sido agredidos fisicamente por colegas.
A pesquisa também evidencia fragilidades no suporte oferecido pelas escolas. Menos da metade dos estudantes da rede pública têm acesso a apoio psicológico, e apenas 34,1% contam com profissionais de saúde mental nas instituições. Programas de prevenção ao bullying também não alcançam a maioria das unidades.
Para especialistas, o cenário exige políticas públicas mais robustas, com foco na prevenção, no acolhimento e na ampliação do suporte emocional. A combinação entre sofrimento psíquico, violência escolar e falta de assistência reforça a urgência de ações coordenadas para garantir o bem-estar dos adolescentes.