
Uma operação da Polícia Civil de São Paulo realizada nesta terça-feira (30) mirou suspeitos de violência contra mulheres em diferentes regiões do estado, com o cumprimento de cerca de 1,4 mil mandados de prisão e de busca e apreensão. A ofensiva ocorre em um contexto de aumento da cobrança por respostas institucionais diante da persistência de altos índices de feminicídio e de casos recentes que reacenderam o debate público sobre a violência de gênero.
De acordo com a Polícia Civil de São Paulo, a ação teve como foco o cumprimento de decisões judiciais relacionadas a crimes como agressão, ameaça, descumprimento de medidas protetivas e violência doméstica. A operação envolveu delegacias especializadas e unidades territoriais em diferentes regiões do estado e resultou na prisão de ao menos 233 agressores, acusados de crimes de violência doméstica e familiar contra mulheres.
Violência contra as mulheres em SP
A ofensiva ocorre após São Paulo registrar mais de 250 casos de feminicídio ao longo de 2025, segundo dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública. O número mantém o estado em patamar elevado de violência letal contra mulheres e ampliou a pressão sobre o governo estadual e as forças de segurança por ações mais visíveis e contínuas.
A cobrança por respostas mais firmes ganhou força após a repercussão do caso de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, na capital paulista, no dia 24 de dezembro deste ano.
O episódio, ocorrido em uma das vias mais movimentadas da cidade, provocou forte comoção pública e ampliou o debate sobre a violência contra mulheres, a responsabilização dos agressores e a capacidade de resposta do poder público. O caso passou a ser citado como símbolo da gravidade do cenário e contribuiu para recolocar o enfrentamento à violência de gênero no centro da agenda política e institucional.
Pressão nacional e discurso federal
O tema também ganhou centralidade na agenda nacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevar o tom em defesa de ações mais firmes contra a violência de gênero. O discurso foi intensificado após a repercussão do caso de Tainara, ocorrido em São Paulo, e de outro episódio envolvendo um servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) investigado por agredir a ex-namorada e o filho dela, em 7 de dezembro.
Após o episódio, a Polícia Civil do Distrito Federal indiciou David Cosac Junior. O presidente também determinou a abertura de processo para exclusão do servidor do quadro da instituição.
Em pronunciamentos recentes, o presidente cobrou maior integração entre estados, forças de segurança, sistema de Justiça e políticas de proteção às vítimas, defendendo que o enfrentamento à violência contra mulheres seja tratado como prioridade permanente.
Números de casos no Brasil
No plano nacional, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o Brasil vem registrando, nos últimos anos, mais de 1.400 feminicídios por ano, patamar considerado elevado e persistente. Dados preliminares e levantamentos parciais de 2025 indicam manutenção desse nível, sem sinais claros de reversão estrutural até o momento.
Pesquisas do fórum mostram ainda que grande parte das vítimas já havia sofrido violência prévia e que falhas no cumprimento de medidas protetivas seguem como um dos principais gargalos das políticas públicas de prevenção.
Disputa de agendas e resposta institucional
A operação em São Paulo ocorre em um ambiente marcado não apenas por coordenação institucional, mas também por disputa de agendas entre diferentes níveis de governo. Enquanto o governo federal pressiona por respostas e reforça o discurso público sobre o tema, estados buscam evidenciar iniciativas próprias diante da crescente sensibilidade da sociedade à violência contra mulheres.
O cenário reforça que ações policiais, embora relevantes, fazem parte de uma resposta mais ampla, que envolve prevenção, proteção às vítimas e capacidade do Estado de agir antes que a violência chegue ao desfecho mais grave.