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O ano de 2025 consolidou-se como um ano notável para o teatro brasileiro. De um lado, o mercado celebrou recordes de público e bilheteria, impulsionados pela força dos grandes espetáculos e o retorno de artistas de apelo; de outro, a cena se aprofundou em uma dramaturgia essencialmente brasileira, marcada pela diversidade, engajamento social e a busca por novos formatos de produção. O cenário foi sintetizado pela mostra “Em Cena 2025” da Prefeitura de São Paulo, que reuniu os principais espetáculos da temporada, totalizando cerca de 1 milhão de espectadores apenas nas peças em exibição.

Os números de bilheteria sinalizam uma recuperação vigorosa pós-pandemia. No Rio de Janeiro, o aumento de espectadores nos equipamentos municipais atingiu 65,6% em relação a 2024. Em São Paulo, o grande motor foi, inegavelmente, a força dos musicais. A montagem inédita de “Wicked” se transformou em um fenômeno, vendendo 80 mil ingressos na estreia e ultrapassando a marca de 1 milhão de ingressos vendidos, surfa na esteira do sucesso da sequência cinematográfica do título.

Os musicais firmaram-se como o segmento de maior orçamento e arrecadação do setor. Contudo, 2025 viu uma virada importante com a prevalência de produções brasileiras e biográficas. Musicais sobre figuras como Djavan, Jovelina Pérola Negra e Raul Seixas dominaram os palcos, valorizando a dramaturgia e a cultura nacionais.

Esse cenário de sucesso contrasta com a crise que atinge a Broadway, onde a maioria das 18 novas montagens de musicais estreantes em 2025 não obteve lucro, com altos custos de produção e fechamentos prematuros, indicando a necessidade de renovação e sustentabilidade.

A ascensão do monólogo

A volta de artistas consagrados do cinema e da televisão foi crucial para atrair grandes massas de público, movimentando as bilheterias e enchendo os tablados. O retorno mais aguardado foi o de Wagner Moura, que encenou “Um julgamento”, uma releitura de Henrik Ibsen, após um hiato de 16 anos. Nomes como José de Abreu (“A baleia”) e Natália do Vale (“A sabedoria dos pais”) também voltaram com êxito, comprovando o poder de atração das estrelas midiáticas para o teatro.

Apesar dos sucessos de público, a realidade da produção continua desafiadora. Um sintoma dessa dificuldade estrutural é a forte presença dos monólogos no circuito. Com o custo crescente de montar espetáculos com elencos numerosos, o formato solo roubou a cena com êxitos como “O motociclista no globo da morte” (Eduardo Moscovis) e “O céu da língua” (Gregório Duvivier), que foi visto por quase 200 mil pessoas.

No entanto, as companhias de trajetória sólida, como o Teatro Oficina (“Senhora dos afogados”) e o Grupo Galpão (“Um ensaio sobre a cegueira”), mantiveram-se como pilares de excelência, com ingressos esgotados e temporadas concorridas.

Engajamento social

A curadoria da mostra “Em Cena 2025” e a lista de peças indicadas a prêmios (Shell e APCA) revelam um teatro com forte viés analítico e de engajamento. A dramaturgia de 2025 abraçou temas urgentes, provando a relevância social e política da arte.

Destaques como “Mural da memória” (foto que ilustra esse texto) trouxeram à cena os julgamentos dos desaparecimentos da Ditadura Militar, cruzando o tema com depoimentos de testemunhas diversas, incluindo uma prostituta travesti. “Restinga de Canudos” revisitou a história nacional sob uma ótica para além do massacre, enquanto “Pai contra mãe” abordou conflitos sociais e trabalhistas contemporâneos.

A busca por inclusão e representatividade também foi marcante. Peças como “Língua” convidaram à reflexão sobre os desafios das pessoas com deficiência, e a produção “Pa’ra – Rio de Memórias”, protagonizada por uma atriz indígena, abordou conflitos territoriais do povo Sateré-Mawé.

Em 2025, o teatro brasileiro conseguiu conjugar o êxito comercial dos grandes espetáculos, que garantiram o fôlego financeiro do setor, com uma profunda e necessária investigação da realidade social e cultural do país.

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