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Valter Campanato/Agência Brasil

A decisão da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, de disputar uma vaga no Senado por São Paulo em 2026 reorganiza o tabuleiro eleitoral no maior colégio eleitoral do país e se torna uma das primeiras peças importantes da estratégia de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tebet confirmou nesta quinta-feira (12) que deixará o governo no próximo ano para entrar na disputa, após conversas com Lula e aliados sobre a formação do palanque governista no estado.

A movimentação responde a uma preocupação antiga do PT: a dificuldade de construir uma coalizão ampla em São Paulo. O estado concentra cerca de 22% do eleitorado brasileiro e costuma funcionar como termômetro político nacional. Ao levar Tebet para a disputa paulista, Lula tenta ampliar a frente política que sustentou sua eleição em 2022 e reforçar o diálogo com eleitores de centro e setores moderados do empresariado.

Nos bastidores, a avaliação é que a presença da ministra ajuda a compor uma chapa capaz de dialogar para além do eleitorado tradicional do PT, principalmente em um estado onde o antipetismo ainda tem peso eleitoral.

A engenharia do palanque paulista

A candidatura de Tebet se conecta diretamente ao desenho que começa a ser discutido para a eleição estadual de 2026. Um dos cenários considerados no campo governista prevê o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), como candidato ao governo de São Paulo, repetindo a estratégia de 2022, quando chegou ao segundo turno contra Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).

Nesse cenário, Tebet ocuparia uma das duas vagas ao Senado, reforçando o caráter de frente ampla da chapa. O arranjo, no entanto, está longe de ser definitivo e abre uma série de negociações entre partidos aliados.

A eleição ao Senado em São Paulo terá duas cadeiras em disputa, o que transforma a composição da chapa em uma peça central do xadrez eleitoral. Outros partidos da base do governo pressionam por espaço na segunda vaga ou em posições estratégicas da chapa majoritária.

Marina Silva entra na equação

Um dos nomes que aparece nesse debate é o da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede-AC). Aliada histórica de Lula, Marina tem sido mencionada em discussões internas como possível candidata a vice na chapa ao governo paulista ou mesmo como opção para compor a disputa ao Senado.

A presença de Marina na equação eleitoral reforça o esforço do governo de combinar perfis políticos diferentes na construção da chapa. Enquanto Tebet dialoga com o centro político e setores liberais moderados, Marina tem forte identificação com pautas ambientais e com segmentos progressistas urbanos.

Esse equilíbrio entre diferentes correntes políticas é visto como uma tentativa de reproduzir, em escala estadual, a lógica da frente ampla que marcou a eleição presidencial de 2022.

A eventual participação de Marina também atende a um cálculo eleitoral específico: ampliar a presença do campo governista entre eleitores jovens e urbanos, sobretudo em regiões metropolitanas onde a agenda ambiental ganhou peso político nos últimos anos.

Trocas partidárias entram no radar

A definição da chapa em São Paulo também envolve discussões sobre possíveis mudanças partidárias de lideranças envolvidas na articulação eleitoral.

Simone Tebet é filiada ao MDB, partido que historicamente mantém posição ambígua em relação ao governo Lula. Embora integre a base governista no Congresso, o MDB possui alas que defendem caminhos próprios nas eleições de 2026. Diante desse cenário, aliados da ministra admitem que ela poderá avaliar alternativas partidárias caso o MDB não garanta espaço para sua candidatura em São Paulo.

Nos bastidores, partidos da base de Lula, como PSB e PSD, são citados como possíveis destinos caso uma mudança se torne necessária para viabilizar o projeto eleitoral.

No caso de Marina Silva, a discussão envolve a possibilidade de ela deixar a Rede Sustentabilidade para se filiar ao PSB, legenda que já abriga o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP). A migração poderia facilitar a construção de uma chapa mais integrada no estado e ampliar o tempo de televisão e a estrutura partidária para a campanha.

Apesar das especulações, tanto Tebet quanto Marina aguardam a definição política de Lula e de Haddad sobre o formato final da chapa antes de tomar qualquer decisão sobre eventuais mudanças de partido.

Pressão dos aliados

A entrada de Tebet na disputa paulista também produz tensões entre partidos da base governista. Siglas como PSB, Rede e setores do MDB buscam garantir espaço na composição da chapa, seja na segunda vaga ao Senado, seja na vice do candidato ao governo.

O PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin, tem interesse direto na definição do palanque paulista, já que Alckmin mantém forte influência política no estado e pretende preservar protagonismo na articulação eleitoral de 2026.

Esse quadro transforma São Paulo em um dos principais campos de negociação dentro da coalizão governista, onde cada vaga majoritária tem alto valor estratégico.

O perfil político de Simone Tebet

Advogada e professora universitária, Simone Tebet construiu sua trajetória política no MDB de Mato Grosso do Sul. Foi prefeita de Três Lagoas, deputada estadual e senadora entre 2015 e 2023.

No Senado, ganhou projeção nacional ao presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e ao participar da CPI da Covid, onde teve papel relevante nas investigações sobre a condução da pandemia.

Em 2022, disputou a Presidência da República e terminou o primeiro turno em terceiro lugar. Sua decisão de apoiar Lula no segundo turno foi considerada decisiva para ampliar o apoio de setores do centro político ao petista.

Ao assumir o Ministério do Planejamento, Tebet passou a ocupar posição estratégica na formulação da política econômica do governo, atuando na elaboração do orçamento federal e no planejamento de investimentos públicos.

No cargo, tem defendido uma combinação entre responsabilidade fiscal, planejamento de longo prazo e redução das desigualdades regionais, posicionando-se como uma das vozes moderadas dentro da coalizão governista.

O impacto para o governo Lula

A candidatura de Tebet representa, para Lula, mais do que uma disputa estadual. Ela funciona como sinal político de continuidade da estratégia de coalizão ampla que marcou o início do atual governo.

Ao incentivar a ministra a disputar o Senado em São Paulo, o presidente busca consolidar um palanque competitivo no estado e ampliar o diálogo com setores que não fazem parte da base histórica do PT.

Ao mesmo tempo, o movimento obriga o campo governista a reorganizar seu equilíbrio interno. A presença de Tebet fortalece o projeto eleitoral em São Paulo, mas também intensifica a disputa entre aliados pela ocupação das demais posições da chapa.

Nos bastidores da política nacional, a avaliação predominante é que a eleição paulista de 2026 será um dos principais campos de teste para a estratégia de Lula de reconstruir uma maioria política ampla no país.

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