Master
Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

A revista britânica The Economist publicou nesta sexta-feira (23) uma reportagem detalhada sobre o colapso do Banco Master, descrevendo o episódio como uma “saga sórdida” que extrapolou o sistema financeiro e passou a envolver políticos, membros do Judiciário e disputas de poder em Brasília. Segundo a publicação, o caso expõe fragilidades regulatórias, uso político de instituições e riscos à credibilidade do país.

No centro da narrativa está Daniel Vorcaro, que assumiu a presidência do Banco Master em 2019 e, nos anos seguintes, passou a ostentar um estilo de vida incompatível com o porte da instituição. A revista relata que Vorcaro gastou generosamente com imóveis de alto padrão, jatos particulares, um hotel de luxo e um time de futebol, além de ter desembolsado mais de US$ 3 milhões na festa de 15 anos da filha.

“Enquanto o champanhe corria solto e os jatos acumulavam milhas, alguns começaram a se perguntar como o Banco Master estava crescendo tão rápido”, escreve a revista.

Crescimento acelerado e modelo de risco

Segundo o The Economist, o modelo de negócios do Banco Master se baseava principalmente na venda de certificados de depósito bancário (CDBs) com taxas de juros excepcionalmente altas, produto popular entre investidores brasileiros em busca de rendimento elevado.

A revista aponta que o crescimento acelerado escondia fragilidades estruturais e que parte relevante dos ativos do banco não tinha liquidez real. As rachaduras começaram a aparecer quando Vorcaro tentou vender a instituição de forma repentina.

Tentativa de venda ao BRB e descoberta do rombo

O texto detalha que Vorcaro encontrou um comprador no Banco de Brasília (BRB), instituição controlada pelo Governo do Distrito Federal. No entanto, ao analisar a operação, o Banco Central identificou que o Banco Master não tinha liquidez suficiente.

De acordo com a reportagem, investigadores descobriram que o Master havia vendido ao BRB carteiras de crédito sem valor por mais de US$ 2 bilhões. A operação acendeu o alerta máximo no regulador. Pouco depois, Vorcaro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular com destino a Dubai.

O custo para o sistema financeiro do Master

Com a liquidação do banco, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) passou a reembolsar os depositantes. Segundo o The Economist, o valor total deve ficar entre US$ 7,5 bilhões e US$ 10 bilhões, a maior indenização desse tipo na história do Brasil.

Para a revista, o caso deixou de ser um problema bancário isolado e se transformou em um teste para o sistema financeiro e institucional do país.

Conexões políticas e o Centrão

A reportagem afirma que Vorcaro passou anos cultivando relações com a elite política brasileira, o que fez com que o colapso do banco atingisse diretamente a reputação de instituições em Brasília.

Segundo a revista, políticos ligados ao Centrão — grupo de partidos com forte influência no Congresso — tentaram proteger o Banco Master antes da falência. O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, é citado como alguém que tentou bloquear uma investigação parlamentar sobre as transações do banco e pressionou pela aprovação de um projeto que daria ao Congresso poder para demitir o presidente do Banco Central.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, também é mencionado por ter defendido com veemência a aquisição do Banco Master pelo BRB, apesar dos alertas de analistas. Um juiz chegou a afastar o então presidente do BRB por suspeita de interferência política.

A revista destaca ainda que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e também investigado, foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro em 2022 e de Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo.

Judiciário sob suspeita

O The Economist dedica parte relevante da reportagem às conexões com o Judiciário. Após a liquidação do banco, Jhonatan de Jesus, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), determinou uma investigação para apurar se o Banco Central poderia ter adotado alternativas à liquidação.

“Esse tipo de interferência na autoridade do Banco Central é incomum e preocupante”, afirmou à revista um procurador sênior envolvido no caso.

A reportagem também relata que, ao acessar o telefone de Vorcaro, investigadores encontraram um contrato de US$ 24 milhões, com duração de três anos, firmado com um escritório de advocacia dirigido pela esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Um especialista jurídico ouvido pela revista afirmou que a vagueza do contrato e os valores envolvidos “não são normais” para os padrões brasileiros.

Moraes e sua esposa negaram irregularidades, e a Procuradoria-Geral da República arquivou a investigação por falta de provas. Ainda assim, o episódio alimentou suspeitas sobre a imparcialidade do Supremo.

A reportagem menciona também o ministro José Antonio Dias Toffoli, que viajou em um jato particular com um advogado do Banco Master no mesmo período em que foi sorteado para relatar um caso envolvendo a empresa. Posteriormente, descobriu-se que Fabiano Zettel havia investido mais de US$ 1 milhão em um resort ligado a irmãos de Toffoli. Não há provas de que o ministro tivesse conhecimento do investimento.

O papel do Banco Central

Para o The Economist, o “único vencedor incontestável dessa saga” é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que resistiu às pressões políticas para salvar o Banco Master. A revista afirma que Galípolo se manteve firme na defesa da liquidação, mesmo diante de tentativas de interferência.

Após o episódio, Galípolo passou a defender no Congresso a ampliação da autonomia administrativa, orçamentária e financeira do Banco Central, além da autonomia operacional já existente, como forma de proteger a instituição de pressões políticas futuras.

Segundo a revista, a forma como o Brasil lidará com os desdobramentos do caso será observada de perto por investidores internacionais. “A saga do Banco Master mostra como finanças, política e Justiça podem se misturar de forma explosiva”, conclui o The Economist.

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