
A mais recente edição da revista britânica The Economist, divulgada na quarta-feira (21), retratou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sem camisa e montado em um urso, em uma analogia direta à imagem que se tornou símbolo da construção política do presidente da Rússia, Vladimir Putin. A ilustração remete às fotografias amplamente difundidas de Putin exibindo força física e domínio simbólico, usadas ao longo dos anos como instrumento de comunicação política.
A capa acompanha o editorial intitulado “O verdadeiro perigo representado por Donald Trump,” no qual a revista afirma que o presidente americano representa uma “ameaça existencial” não por um gesto isolado, mas por seu modo de exercer o poder. Para o jornal, o risco está na normalização da coerção e da intimidação como ferramentas políticas legítimas, inclusive nas relações com aliados históricos.
Ao analisar o recente recuo de Trump nas declarações sobre a Groenlândia, a revista observa que a desistência de tarifas e o abandono da retórica militar podem ser apenas uma “retirada tática”, sem que haja mudança real de objetivos. Segundo o editorial, Trump tende a recuar sob pressão, “sem necessariamente abrir mão de seus objetivos de longo prazo”.
O texto lembra que o presidente “cobiça a Groenlândia há anos” e afirma que seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no qual tratou a OTAN com desdém, deveria colocar “as capitais europeias em alerta máximo”. Para o veículo, o episódio revela como disputas pontuais passaram a carregar peso sistêmico sob a atual liderança americana.
O Economist afirma ainda que, sob Trump, “cada desentendimento ameaça ser existencial” e que sua “visão de mundo estreita e pessimista”, somada à disposição de “reescrever a história”, corroeu a confiança que sustentava as alianças dos Estados Unidos. No diagnóstico da publicação, o presidente americano antecipa um realinhamento global para o qual os aliados de Washington precisam se preparar.
No trecho final, o editorial sustenta que Trump dificilmente abandonará a ideia de que aliados “são parasitas” e que valores compartilhados “são coisa de otário”. Para a revista, essa percepção torna inevitável a ocorrência de novos confrontos, “seja sobre a Groenlândia ou sobre qualquer outro tema”.
O artigo conclui que, após décadas de uma “proteção americana que embalou os europeus”, esse ciclo estaria se encerrando. Segundo o Economist, líderes europeus precisam, ao mesmo tempo, tentar desacelerar a erosão da aliança transatlântica e planejar um cenário em que a OTAN deixe de ser o pilar incontestável da segurança do continente.