
O jornal britânico The Guardian publicou nesta segunda-feira (2) uma defesa enfática de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, como o filme que deveria vencer o Oscar de Melhor Filme. Em texto opinativo, o crítico afirma que, embora haja “cerca de seis favoritos e candidatos, alguns filmes verdadeiramente excepcionais”, a obra brasileira é a que permanece na memória como uma escolha ousada e fora do consenso.
O Guardian descreve o longa como “um filme brasileiro incrivelmente sofisticado, excêntrico e prolixo”, que trata de “amor e paternidade, tirania e resistência, e da busca por reconciliação com o passado”. O texto ressalta que a narrativa começa como um “mistério lúgubre” e, no ato final, “escala de forma impressionante, passando para uma tensão gélida e violência”.
O crítico Peter Bradshaw, responsável pelo texto, diz que seu “coração se encherá de alegria” ao ver os produtores Kleber Mendonça Filho e sua esposa Emilie Lesclaux subirem ao palco caso o filme vença. A produção é descrita como feita com “estilo natural e permeada por pura inspiração cinematográfica”. Sobre a abertura, o jornal escreve que “a cena de abertura, por si só, com seu desconforto de humor negro, é uma espécie de obra-prima”.
Um thriller histórico ambientado na ditadura
A história se passa no Recife dos anos 1970, durante a ditadura militar brasileira. Wagner Moura interpreta Armando, professor de engenharia que se torna inimigo do Estado após confrontar um empresário ligado ao regime. A crítica destaca o uso recorrente do Fusca amarelo do protagonista como um motivo visual deliberado do diretor.
O antagonista Ghirotti é descrito como empresário com “ligações com o governo, atitudes racistas, tendências misóginas e sede de vingança mafiosa”. O conflito leva Armando a se esconder em uma casa segura ligada à resistência, administrada por Dona Sebastiana, personagem interpretada por Tânia Maria, elogiada como uma “bela atuação”.
O Guardian observa que o filme mistura referências cinematográficas diversas: “É como se O Passageiro, de Antonioni, se misturasse com Leone e Peckinpah e um romance policial de Elmore Leonard.” Ao mesmo tempo, afirma que a obra tem “qualidade quase novelesca, episódica – uma autoconsciência fria e discursiva”.
Com quase 2h40 de duração, o longa é chamado de “um pequeno milagre”, ainda que, segundo o texto, “com sua duração quase épica, seja na verdade um milagre muito grande”.
Violência, alegoria e memória histórica
A crítica dedica atenção especial à atmosfera da cidade durante o carnaval, que funciona como pano de fundo para a repressão comandada pelo chefe de polícia Euclides Cavalcanti. O personagem é descrito como “certamente um dos maiores vilões policiais suados do cinema”.
O texto também destaca o elemento alegórico do tubarão, referência à febre cultural provocada pelo filme de Spielberg, encontrado com uma perna humana no estômago. Para o crítico, o tubarão simboliza “o retorno do reprimido: a verdade sobre o que está acontecendo” sob o regime autoritário.
Sobre a sequência final, o Guardian afirma que o clímax é “ainda mais chocante e melancólico por acontecer fora das câmeras”, reconstruído do ponto de vista de pesquisadores históricos que tentam reconstituir os eventos por meio de registros e entrevistas antigas.
Política sem panfleto
O jornal observa que O Agente Secreto é “quase inteiramente apolítico” no sentido tradicional. Segundo a crítica, a dissidência do filme não está em discursos explícitos, mas “no tom, na retórica e na atitude”. A única personagem explicitamente combativa seria Dona Sebastiana.
Em determinado momento, a líder da resistência, Elza, ironiza o improviso brasileiro ao comparar a identidade falsa de Armando com o programa de proteção a testemunhas americano. A frase citada pelo Guardian resume o espírito do filme: “Lá, isso é feito com muito dinheiro e pelo governo deles. Aqui, é tudo meio improvisado, ao estilo brasileiro – e para te proteger do Brasil!”
O crítico sugere que essa improvisação aparente também define o estilo da obra, que “divaga e se repete” e introduz personagens secundários vívidos sem necessariamente amarrá-los a uma função dramática clássica.
Defesa de um cinema autoral
Ao defender o filme como vencedor ideal, o Guardian posiciona O Agente Secreto como um exemplo de cinema autoral que alia ambição formal e relevância histórica. A crítica não ignora a força dos concorrentes, mas sustenta que a produção brasileira representa uma escolha artística mais ousada para a Academia.
A análise se soma ao debate internacional sobre os critérios que orientam o Oscar: impacto comercial, performance individual ou ambição estética e política.
Se depender do Guardian, a resposta está em Recife, nos anos 1970, sob o olhar de Kleber Mendonça Filho.