
Os EUA parecem novamente à beira de uma inflexão perigosa em sua política externa. A possibilidade concreta de um ataque militar ao Irã, ventilada nos bastidores diplomáticos e reforçada por análises de especialistas, ocorre em um contexto mais amplo: o de um segundo mandato de Donald Trump marcado pela transformação da geopolítica em espetáculo, pela instrumentalização da atenção global e por uma correlação direta entre fragilidade doméstica e ousadia internacional.
No caso iraniano, os cenários possíveis vão do improvável ao catastrófico. Um ataque pontual e cirúrgico que leve a uma transição democrática, hipótese mais otimista, encontra pouco respaldo na experiência recente. Iraque e Líbia são lembretes eloquentes de que derrubar regimes autoritários não equivale a construir democracias funcionais. Ainda que o regime iraniano esteja enfraquecido por protestos internos e isolamento internacional, a existência de um aparato de segurança coeso e brutal, sobretudo a Guarda Revolucionária, torna esse desfecho altamente improvável.
Outras hipóteses parecem mais plausíveis e, justamente por isso, mais preocupantes. Um “modelo venezuelano”, no qual o regime sobreviveria sob pressão e moderaria suas políticas, soa improvável diante da rigidez ideológica de Teerã. Já a substituição do atual regime por um governo militar, composto majoritariamente por integrantes da Guarda Revolucionária, é vista por muitos analistas como o resultado mais provável de uma ofensiva americana: uma troca de elites sem abertura política real.
O risco maior, contudo, está na retaliação. O Irã deixou claro que não aceitaria um ataque sem resposta. Isso poderia incluir ofensivas contra bases americanas no Golfo, ataques a países aliados dos EUA, como Jordânia ou Arábia Saudita, ou ainda ações assimétricas no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto do petróleo comercializado no mundo.
Esse quadro de risco elevado não pode ser dissociado da lógica política que orienta Donald Trump. Como demonstrado em episódios recentes, da ameaça de anexação da Groenlândia a disputas tarifárias sucessivas, Trump não reage à agenda internacional: ele a fabrica. Sua estratégia baseia-se em um princípio simples e poderoso da política contemporânea: atenção é poder. Em um ambiente saturado de informação, quem controla o foco controla o debate, impõe o ritmo e obriga adversários a agir de forma reativa.
Método
A ameaça à Groenlândia foi exemplar. Ainda que pouco plausível em termos práticos, foi perfeita como “clickbait geopolítico”. Enquanto líderes europeus emitiam notas, articulavam posições e tentavam preservar a unidade, Trump avançava para a próxima provocação, deixando para trás um rastro de distração diplomática.
Essa tática, descrita por Steve Bannon como “inundar a zona”, migrou da política doméstica para a arena internacional. O efeito colateral é corrosivo: uma Europa permanentemente reativa, fragmentada por preocupações regionais distintas, incapaz de sustentar planejamento estratégico de longo prazo. O resultado não é apenas descoordenação, mas vulnerabilidade estrutural.
Por trás do espetáculo, no entanto, há coerência. A política externa de Trump parte de uma visão transacional das alianças. A Europa deixa de ser parceira em uma ordem baseada em regras e passa a ser tratada como um bloco em declínio, cujos países recebem apoio ou pressão conforme seu alinhamento ideológico com Washington. A Groenlândia, nesse contexto, não era o objetivo final, mas uma alavanca simbólica.
É nesse cenário que a análise da Eurasia Group ganha relevo. Para Christopher Garman, quanto mais Trump se enfraquece internamente, pressionado por custo de vida elevado e pela perspectiva de derrota nas eleições de meio de mandato, maior tende a ser sua ousadia no exterior. A lógica é compensatória: a projeção de força internacional funciona como instrumento de reafirmação política doméstica.
Segundo Garman, cresce a probabilidade de uma ação militar mais agressiva contra o Irã, impulsionada tanto pela influência de Israel quanto pela leitura, dentro da Casa Branca, de que ofensivas recentes (como na Venezuela) foram bem-sucedidas. Ao mesmo tempo, as tensões com a Europa devem persistir, inclusive com ameaças à soberania de aliados históricos, algo que até pouco tempo seria impensável no âmbito da Otan.
Esse aumento de tensão não ocorre em um vácuo. A Europa enfrenta seus próprios desafios: baixo crescimento, crise de produtividade, rejeição crescente a governos incumbentes e ascensão de partidos populistas de direita.
No tabuleiro global, há ainda um elemento de contraste. Enquanto a relação com Europa e Irã tende a se deteriorar, a disputa entre EUA e China pode entrar em fase de arrefecimento. Trump, segundo a Eurasia, subestimou o poder de barganha chinês — especialmente em áreas como terras raras — e estaria disposto a negociar uma normalização pragmática, com redução de tarifas e acordos setoriais.
Nesse mundo mais protecionista e volátil, potências médias ganham margem de manobra. O Brasil surge como exemplo: apesar de fragilidades fiscais e juros elevados, reúne ativos estratégicos — potência agroalimentar, energética e detentora de grandes reservas minerais — que tendem a se valorizar em um cenário de busca por resiliência.
O fio condutor de todos esses movimentos é claro. A política internacional entrou definitivamente na era da guerra pela atenção. O perigo é que, ao transformar ameaças militares em instrumentos de espetáculo, o risco de erro de cálculo aumenta exponencialmente. No caso do Irã, isso pode significar não apenas mais um ciclo de instabilidade regional, mas um choque global de consequências imprevisíveis.