U2
Anton Corbijn/Reprodução

O U2 voltou ao centro do debate político internacional com o lançamento surpresa de Days of Ash, EP com seis faixas inéditas divulgado na última quarta-feira (18). O trabalho é o primeiro conjunto de músicas originais da banda em quase dez anos e assume, de forma direta, uma posição diante dos conflitos e tensões que marcam o cenário global atual.

O disco não opta por metáforas amplas ou abstrações. As letras abordam temas concretos, incluindo políticas migratórias nos Estados Unidos, a guerra na Ucrânia, a repressão a protestos no Irã e o conflito no Oriente Médio. Em “American Obituary”, a banda critica a atuação do ICE, o serviço de imigração norte-americano que tem aterrorizado estados inteiros cumprindo a nova política migratória de Donald Trump. Outras faixas fazem referências explícitas a Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu, situando o trabalho dentro de um contexto geopolítico reconhecível.

O tom retoma uma tradição que acompanha o grupo desde os anos 1980. Em “Sunday Bloody Sunday”, o U2 abordou a violência na Irlanda do Norte. Nos anos seguintes, incorporou ao repertório temas ligados à desigualdade, dívida externa, fome e direitos humanos. O vocalista Bono transformou-se, ao longo das décadas, em interlocutor frequente de chefes de Estado e defensor de campanhas globais contra a pobreza e a epidemia de HIV na África. A militância nunca foi acessório na trajetória da banda; foi parte estruturante de sua identidade pública.

Nas redes sociais, a banda fez questão de falar sobre o novo trabalho. “Este novo EP é uma resposta aos acontecimentos atuais, inspirado pelas muitas pessoas extraordinárias e corajosas que lutam na linha de frente da liberdade. Quatro das cinco faixas falam sobre indivíduos — uma mãe, um pai e uma adolescente cujas vidas foram interrompidas de forma brutal — além de um soldado que preferiria estar cantando, mas está disposto a morrer pela liberdade de seu país”, diz um post publicado no X.

Em Days of Ash, essa marca reaparece com menos euforia e mais gravidade. O contexto internacional mudou. Se nos anos 2000 o discurso do grupo se conectava a agendas multilaterais e campanhas humanitárias amplas, o momento atual é de fragmentação política, polarização e conflitos armados ativos. O EP reflete esse ambiente. A escolha por lançar o material de forma relativamente inesperada também reforça a ideia de urgência, como se as músicas respondessem a acontecimentos em curso.

Há ainda um aspecto simbólico relevante. Em uma indústria musical dominada por ciclos rápidos de streaming e foco em métricas digitais, o U2 opta por um projeto conceitualmente coeso, centrado em temas contemporâneos sensíveis. O movimento não parece direcionado apenas a desempenho comercial, mas à reafirmação de posicionamento.

O lançamento ocorre em paralelo a um cenário cultural em que artistas frequentemente evitam declarações explícitas para não alienar públicos diversos. O U2, ao contrário, mantém a linha de engajamento direto. Essa escolha não é nova, mas ganha novo peso em uma década marcada por guerras regionais, disputas ideológicas intensas e questionamentos sobre instituições democráticas.

Quase dez anos após seu último álbum de inéditas, a banda retorna com um trabalho que dialoga menos com nostalgia e mais com o presente. Days of Ash não representa uma ruptura na trajetória do U2. Representa continuidade. Em um mundo em convulsão, o grupo reafirma que ainda entende o rock como linguagem política.

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