Vila Isabel
Reprodução/ Instagram

A Unidos de Vila Isabel afastou, na segunda-feira (8), a influenciadora e empresária Rayane Figliuzzi do posto de musa para o Carnaval de 2026. A decisão ocorre em meio à repercussão de uma denúncia de injúria racial registrada pela ex-assessora de imprensa da influenciadora, Juliana Palmer, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Rio de Janeiro. O caso foi encaminhado à Polícia Civil de São Paulo, que abriu investigação.

A escola justificou oficialmente o afastamento por “impossibilidade de cumprimento das agendas”, mas mencionou os “recentes acontecimentos”, reafirmando posição de repúdio a qualquer ato discriminatório. Em nota, Vila Isabel destacou a necessidade de dedicação integral ao posto e citou o compromisso com valores de respeito e inclusão. O patrono da escola, Capitão Guimarães, foi incluído no comunicado com a frase: “Preconceito é burrice; quem o pratica deixa de ser humano para se tornar uma coisa sem valor”.

Denúncia e repercussão nos bastidores

O episódio que desencadeou a crise foi relatado por Juliana Palmer ao g1 e confirmado pelo registro de ocorrência. Segundo ela, durante um jantar em um restaurante japonês, a secretária pessoal de Rayane a teria chamado de “macaca” e jogado bebida alcoólica em suas costas. O caso foi registrado como injúria racial.

Palmer afirmou que o cantor Belo, namorado de Rayane, estava presente no local e prestou solidariedade. Disse também que Rayane não estava à mesa no momento da agressão. Em entrevistas concedidas ao g1 e ao jornal Extra, Palmer afirmou ter procurado atendimento médico após o episódio e relatou que deixou a equipe da influenciadora logo depois. O Extra informou que pessoas próximas à escola já avaliavam que a permanência de Rayane como musa havia se tornado “insustentável” após a denúncia e sua repercussão entre segmentos do Carnaval.

O colunista Ancelmo Gois, do O Globo, publicou na manhã desta terça-feira (9) que a crise gerou desconforto interno na escola, sobretudo porque o enredo de 2026 presta homenagem à ancestralidade africana e à trajetória de Heitor dos Prazeres. Integrantes da agremiação teriam pressionado pela desvinculação pública da influenciadora.

Setores da diretoria vinham discutindo a possibilidade de substituição desde a semana passada, avaliando que o caso atingia a imagem da escola às vésperas do início dos ensaios de comunidade e da divulgação oficial das musas do ano. Até o momento, Rayane Figliuzzi e sua secretária não haviam se manifestado publicamente. A influenciadora também não se pronunciou nas redes sociais.

Contexto do enredo e impacto na escola

A decisão ocorre no momento em que a Vila Isabel prepara um desfile baseado na obra de Heitor dos Prazeres, artista e sambista que dedicou carreira à valorização da negritude, da cultura popular e da “Pequena África” da antiga Praça Onze. O enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, enfatiza elementos de ancestralidade, identidade e território – temas que ampliaram a pressão por uma resposta institucional da escola.

A repercussão do caso também mobilizou debates internos no Carnaval carioca sobre condutas de equipes de influenciadores e personalidades que ocupam postos de destaque nas escolas. Segundo apuração do Extra, dirigentes de outras agremiações acompanharam a situação com atenção, avaliando que episódios desse tipo tendem a pressionar escolas a estabelecer protocolos e diretrizes públicas de conduta para musas, destaques e equipes próximas.

A Polícia Civil de São Paulo dará continuidade à investigação do caso, após recebimento do registro feito no Rio de Janeiro.

A Vila Isabel mantém a programação para o Carnaval de 2026 e deve anunciar substituições no quadro de musas nas próximas semanas. A escola ainda não indicou quem ocupará o posto deixado por Rayane.

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