Marcela Rocha

A pandemia oprimia o brasileiro e, em um episódio que só o Brasil é capaz de fabricar, frutos da Bahia – o acarajé e Wagner Moura – irromperam como um farol na vida de diferentes pessoas. Em 11 de novembro de 2021, a Ocupação Carolina Maria de Jesus passou a existir no Google, o que nesses tempos digitais ajuda a consolidar uma identidade. Eram tempos difíceis e a Ocupação se via na contingência de abrigar muitas famílias despejadas, desamparadas e sem um norte naquela vida que se anunciava indigna. Mas um momento especial se aproximava.

Um filme sobre luta e resistência, que provocava um debate inflamado antes mesmo de sua estreia, teria uma exibição especial na ocupação. O filme em questão era “Mariguella” e a sessão especial teria a presença do ator, que então estreava como diretor, Wagner Moura. Foi esse ato, de louvação da cultura brasileira, de memória, mas também de enraizamento político-social, que levou a Ocupação Carolina Maria de Jesus para o Google. “Muitas pessoas passaram a nos marcar no Google e foi aí que passamos a ter nossa descrição lá”, rememora Cláudia Garcez, que era coordenadora do espaço em 2021 e hoje atua na coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST).

Integrantes do MTST compartilham suas memória

“Eu fiquei muito feliz de conhecer a vida e morte do Mariguella”, relembra Marinalva Nascimento, figura de fácil sorriso, simplicidade contagiante e afeto para dar e vender. Ela conta que se impressionou com a quantidade de pessoas que foram ao evento. “Veio gente de outras ocupações para ver o filme e o Wagner”. Cláudia não conseguiu ver o filme naquele dia. Responsável pela organização do evento, estava sobrecarregada, mas suas palavras se enchem de alegria e doçura ao rememorar aqueles momentos que contribuíram para a moral e autoestima de todas aquelas pessoas tão judiadas pelas circunstâncias da vida.

Aquele 11 de novembro foi de acolhimento. “O lançamento do filme estava sendo boicotado, a gente em um momento tão difícil, a ocupação enfrentando resistências, a esquerda bastante atacada pela extrema-direita e receber aquele evento, o maior até então de nossa ocupação, foi muito importante pra gente”, pondera Cláudia.

A semente do ódio cultivada com amor

Quem sentiu na pele o achaque da extrema-direita foi Bia Souza. Paulista de nascimento, mas baiana de alma, a cozinheira ajudou a erguer a Ocupação Carolina Maria de Jesus e tornou-se uma andorinha, expressão usada para aquelas pessoas que não oficialmente integram o movimento, mas que atuam de maneira intensa nele. Ciente do evento e da importância que teria para a comunidade, que também passou a ser sua, ela ofereceu uma doação de kits de acarajé, um prato pelo qual alimenta paixão transcendental. Foram 150 kits que a coordenação reservou para os convidados.

Uma foto de Wagner Moura se deliciando com o acarajé de Bia rodou as redes sociais e despertou a fúria da extrema-direita. Foi Eduardo Bolsonaro quem a vocalizou de imediato, incitado toda sorte de ódio e despropósito.

O Kit Wagner Moura, grande hit do Acarajazz

Bia foi vítima de muitos ataques e ameaças, mas não deixava os ataques sem respostas. Corajosa, sempre encarou a vida de frente. Levando o acarajé com ela. O episódio foi o gatilho para uma virada em sua trajetória. Aquele kit de acarajé seria rebatizado de kit Wagner Moura e se a repercussão a assustava com tanto ódio, também lhe presentava com acolhimento.  “O Eduardo Moreira (empresário e fundador do Instituto Conhecimento Liberta) me procurou para fazer uma live comigo e ele gostou tanto do meu acarajé que me convidou para organizar a festa de aniversário dele”. Foi o pulo do gato.

A demanda pelo acarajé de Bia só fez crescer. Uma coisa levou a outra, sempre com a luta, resiliência e perseverança que caracterizou uma jornada que passou por vendas da iguaria em barracas, garagem, feiras gastronômicas, e surgiu o Acarajazz, restaurante hoje localizado na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, e cujo prato mais concorrido é o kit Wagner Moura.

Bia Souza durante entrevista ao NoPonto

Com emoção e afeto, Bia se recorda daquela noite na Carolina de Jesus. “O Wagner comendo acarajé e aí ele olha para mim: ‘muito bom’”. Aquela noite também foi especial porque motivou um ‘acarejáço’ no Carolina de Jesus, na esteira da polêmica ensejada pelo simples ato de trabalhador comer camarão; e ratificou em Bia a certeza de que sua carreira, sua vocação, estava mesmo no prato, na cozinha afrodiaspórica e no intercâmbio com a gastronomia brasileira. Antes daquele momento, de testemunhar a comunhão que seu acarajé levara ao Carolina de Jesus naquela noite mágica, ela se flagrava em insegurança.

No dia que bateu um papo com a reportagem, Bia tinha passado a madrugada na Ceagesp comprando e organizando ingredientes para a reabertura de seu restaurante após o recesso de ano-novo. Sua energia, no entanto, ricocheteava a luz do sol.

Neste ciclo de encontros, há, ainda, Wagner Moura, que com outro filme sobre resistência e memória, “O Agente Secreto”, ganha o mundo e reconhecimento por sua dedicação à proliferação da cultura brasileira. A indicação ao Oscar está próxima e “a gente quer que ele venha exibir o filme aqui. Ia ser muito simbólico”, conclama a integrante do MTST Kelly Cristina, que tem naquele 11 de novembro um dos dias mais felizes de sua vida. “Que ele venha para comer mais acarajé”, complementa Bia.

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