
O Brasil registrou, em 2024, a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos, segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 42.590 mortes registradas oficialmente, o equivalente a 20,1 assassinatos por 100 mil habitantes — uma queda de 7,4% em relação a 2023.
A redução consolida uma tendência de desaceleração da violência letal no país. Em dez anos, a taxa de homicídios caiu 33,4%, refletindo mudanças em políticas públicas de segurança, transformações nas dinâmicas do crime organizado e fatores demográficos, como o envelhecimento da população.
Apesar do avanço, o relatório recomenda cautela na leitura dos dados. Isso porque aumentaram significativamente os chamados “homicídios ocultos” — casos classificados como mortes violentas por causa indeterminada. Com base em estimativas que utilizam aprendizado de máquina, o número real de homicídios pode ter chegado a 49.673 em 2024, reduzindo a queda anual para apenas 0,4%.
Esse crescimento na subnotificação preocupa pesquisadores. Em 2024, os homicídios ocultos quase dobraram, passando a representar 14,3% do total estimado. O dado sugere dificuldades recentes na identificação da causa das mortes e falhas na integração entre sistemas de saúde e segurança pública.
O Atlas também evidencia que a redução da violência não ocorre de forma homogênea. As maiores taxas continuam concentradas nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para estados como Amapá, Bahia e Pernambuco. Já unidades do Sul e Sudeste, como São Paulo e Santa Catarina, apresentam os menores índices.
A desigualdade territorial se reflete também no nível municipal. Metade dos homicídios do país está concentrada em apenas 99 cidades, o equivalente a 1,8% dos municípios brasileiros. Além disso, a violência mais intensa não se restringe às grandes metrópoles, sendo frequentemente mais elevada em cidades de porte médio.
Se a distribuição geográfica já revela disparidades, o recorte racial expõe um quadro ainda mais crítico. Em 2024, 32.820 pessoas negras foram vítimas de homicídio — 77% do total. A taxa de mortalidade violenta entre essa população é 170,3% superior à de não negros, o que significa que uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada no Brasil.
Estados como Alagoas e Amapá apresentam níveis extremos de desigualdade racial, com risco até 23 vezes maior para pessoas negras em comparação com brancos. Ao longo da última década, mais de 435 mil negros foram assassinados no país, reforçando o caráter estrutural da violência.
O relatório também aponta que a vulnerabilidade se estende a outros grupos. Mulheres negras enfrentam taxas de homicídio 66,7% superiores às de mulheres não negras, enquanto homens negros têm risco 1,7 vez maior que seus pares. Entre a população LGBTI+, houve aumento nas notificações de violência, com destaque para homossexuais, bissexuais e pessoas trans.
Em 2024, foram registrados mais de 10 mil casos de violência contra homossexuais e bissexuais, além de 5.575 ocorrências envolvendo pessoas trans e travestis. Embora parte do crescimento possa estar relacionada à ampliação dos sistemas de notificação, o Atlas aponta indícios de intensificação da violência.
Outro dado relevante diz respeito à população idosa. Apesar de os homicídios nesse grupo serem relativamente baixos, houve crescimento expressivo das notificações de violência, além de aumento significativo de mortes por quedas — fenômeno associado ao envelhecimento populacional.
No conjunto, o Atlas da Violência 2026 revela um cenário ambíguo. De um lado, o Brasil avança na redução dos homicídios e consolida uma tendência histórica de queda. De outro, persistem desafios estruturais, como a subnotificação de mortes, a concentração territorial da violência e, sobretudo, a desigualdade racial.
Os dados indicam que, embora o país esteja se tornando menos violento em termos gerais, a violência segue seletiva — atingindo de forma desproporcional determinados grupos e territórios. O desafio, segundo os pesquisadores, é transformar a redução num processo sustentável e mais equitativo.