
A base industrial de defesa brasileira vive um momento de profunda reorganização. Após enfrentar uma grave crise financeira que paralisou suas atividades por mais de três anos, a antiga Avibras Indústria Aeroespacial retomou oficialmente suas operações sob uma nova identidade: a Avibras Aeroco. Instalada no complexo industrial de Jacareí (SP), a fabricante de mísseis e sistemas de artilharia não apenas restabeleceu cerca de 90% de sua cadeia de fornecedores com o aporte de R$ 300 milhões de investidores, como também foi credenciada pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED).
O selo de EED, oficializado pelo ministro José Múcio Monteiro Filho, confere à companhia acesso facilitado a compras públicas direcionadas, incentivos fiscais e programas de inovação. Na prática, a nova classificação reconhece a importância da empresa para a soberania do país em um cenário internacional de crescente demanda por equipamentos militares.
Essa nova fase da Avibras Aeroco tornou-se a peça-chave para destravar um dos contratos mais complexos das Forças Armadas brasileiras. Trata-se da aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 155 mm para o Exército Brasileiro, uma transação estimada em R$ 800 milhões.
Vencedor de uma licitação internacional em abril de 2024, o sistema desenvolvido pela empresa israelense Elbit Systems teve seu contrato paralisado devido ao desgaste político decorrente do conflito na Faixa de Gaza e das críticas diplomáticas do governo brasileiro a Israel.
Para solucionar o impasse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu aval a um arranjo industrial que envolve a subsidiária nacional AEL Sistemas, a Elbit e a própria Avibras. A proposta prevê que a montagem e a integração dos obuseiros ocorram nas instalações da Avibras em Jacareí, criando uma narrativa de fomento à indústria nacional. Como a empresa paulista já possui ampla experiência com as viaturas Tatra (utilizadas em seu consagrado sistema de artilharia Astros), a integração tecnológica do blindado israelense torna-se viável e estratégica.
Inovação tecnológica e portfólio de longo alcance
Além de atuar na montagem dos blindados do Exército, a Avibras Aeroco acelera seus projetos proprietários. A empresa está na fase final de certificação do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), armamento capaz de atingir alvos a até 450 quilômetros com margem de erro de apenas nove metros. Com o próximo voo de teste agendado para novembro, a expectativa é produzir até 200 unidades anuais, visando a exportação para o Sudeste Asiático e Oriente Médio a partir de 2027.
O portfólio em expansão inclui ainda o desenvolvimento conjunto com o Exército de um míssil balístico guiado com 120 km de alcance, além de novas frentes em veículos aéreos não tripulados (drones) de vigilância e ataque. Unindo tecnologia de ponta, fomento governamental e parcerias globais, a reconstrução da Avibras recoloca o Brasil como um ator estratégico na geopolítica de defesa.