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A eleição presidencial começa a desenhar uma de suas principais linhas de fratura: homens e mulheres estão votando de maneira cada vez mais diferente. E essa diferença pode ser decisiva para determinar quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2027.

Hoje, a principal vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) está justamente entre as mulheres. Segundo a Genial/Quaest, Lula registra 47% das intenções de voto feminino em um eventual segundo turno contra o senador, que aparece com 35%. São 12 pontos de diferença em um universo eleitoral no qual as mulheres representam 52,8% dos eleitores brasileiros, ou 83,8 milhões de pessoas, cerca de 9 milhões a mais que os homens.

A reeleição de Lula depende, em certa medida, da manutenção dessa vantagem. Para Flávio Bolsonaro, reduzir a rejeição entre as mulheres é condição para tornar viável uma vitória.

O chamado gender gap eleitoral não é exatamente uma novidade, mas ganhou intensidade desde 2018. Naquele ano, Jair Bolsonaro conseguiu compensar sua maior rejeição entre as mulheres com uma ampla vantagem entre os homens. Em 2022, a configuração mudou: Lula venceu entre as eleitoras e perdeu entre os eleitores. Foi a primeira eleição presidencial brasileira em que um candidato chegou ao Planalto vencendo em apenas um dos dois segmentos de gênero.

Em 2026, a tendência reaparece. A vantagem de Lula é especialmente expressiva entre mulheres nordestinas, pretas e de baixa renda. Na média das pesquisas Genial/Quaest realizadas entre fevereiro e agosto, o petista alcança 62% contra 23% de Flávio entre as nordestinas; 55% a 24% entre as mulheres pretas; e 52% a 29% entre aquelas com renda de até dois salários mínimos.

O movimento, porém, não significa necessariamente uma guinada maciça das mulheres para a esquerda. A cientista política Luciana Veiga, da Unirio, observa à BBC Brasil que o fenômeno pode ser explicado também por uma guinada mais acentuada dos homens para a direita. Mudanças sociais, como maior participação feminina no mercado de trabalho, autonomia econômica e transformações nas relações familiares, também ajudam a compreender o distanciamento.

É justamente nesse contexto que chama atenção a reação de setores da extrema direita. Ataques ao voto feminino passaram a circular com mais frequência nas redes sociais, em conteúdos que questionam a capacidade das mulheres de escolher politicamente. O problema é que esse discurso parece aprofundar justamente a distância que o bolsonarismo tenta reduzir.

Flávio Bolsonaro percebeu a dimensão do problema e passou a investir no eleitorado feminino. Promete, por exemplo, indicar mulheres para o Supremo Tribunal Federal. Mas a escolha de Alfredo Gaspar para vice, depois de especulações sobre uma mulher na chapa, não ajudou a construir uma imagem de maior representação feminina.

A relação com Michelle Bolsonaro tornou-se outro ponto de vulnerabilidade. Depois de um rompimento público, Flávio pediu desculpas, mas a ex-primeira-dama ainda não mergulhou integralmente em sua campanha. No entorno do bolsonarismo, declarações como as de Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres votam mal, sobretudo solteiras, tornam o problema ainda mais evidente.

Enquanto a batalha pelo voto feminino se desenrola, os números nos maiores colégios eleitorais mostram uma disputa muito mais apertada. Pesquisa Quaest realizada em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro aponta diferenças de no máximo dois pontos entre Lula e Flávio. Em São Paulo, os dois empatam em 30% quando Pablo Marçal é incluído no cenário. Em Minas, ficam em 31% cada. No Rio, Flávio lidera por 33% a 31%.

O quadro, portanto, está longe de definido. Lula tem uma vantagem importante, mas não confortável. E, num eleitorado majoritariamente feminino, a capacidade de cada candidato de falar com as mulheres, sem tratá-las como um segmento eleitoral a ser simplesmente conquistado, mas como protagonistas da disputa política, pode ser uma das chaves da eleição.

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