
A cultura aparece nas eleições presidenciais de 2026 como um terreno em que candidatos de campos políticos distintos expõem concepções bastante diferentes sobre o papel do Estado. Embora Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) coincidam na defesa da ampliação do acesso à produção cultural e da preservação do patrimônio, as propostas divergem sobretudo no financiamento e na presença do governo federal.
Lula apresenta a cultura como instrumento de cidadania, identidade nacional e desenvolvimento econômico. Seu programa prevê o fortalecimento do Ministério da Cultura e o aperfeiçoamento da Lei Rouanet e da Lei Aldir Blanc, com maior equilíbrio regional. Também propõe ampliar o Cultura Viva, proteger mestres das culturas tradicionais e instalar 1.500 bibliotecas em empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida.
No audiovisual, o petista defende a Cota de Tela, o Fundo Setorial do Audiovisual e incentivos ao cinema brasileiro. A regulamentação do streaming e a atualização dos direitos autorais, inclusive diante do avanço da inteligência artificial, completam uma agenda que também inclui a economia criativa e a indústria de games.
Flávio Bolsonaro parte de outra perspectiva. Seu programa enfatiza a valorização das raízes nacionais, a preservação do patrimônio e a recuperação de centros históricos e acervos. Defende descentralizar as leis de incentivo e criar polos culturais fora dos grandes centros. O financiamento público, segundo a proposta, deve ser transparente e não subordinado a agendas políticas ou ideológicas.
Caiado propõe institucionalizar as políticas culturais para evitar rupturas entre governos. A ideia é criar um novo Plano Nacional de Cultura para 2027-2030, fortalecer o Fundo Nacional de Cultura e ampliar repasses diretos a estados e municípios. Bibliotecas, cinemas, museus e pontos de cultura seriam levados a cidades do interior e periferias. O candidato também aproxima cultura de turismo, tecnologia, design, moda e gastronomia.
Zema é mais incisivo na defesa de uma mudança no modelo de financiamento. Critica a concentração da Rouanet em grandes produtores e quer direcionar recursos para artistas locais e produções regionais. Também aposta em parcerias com o setor privado e organizações do terceiro setor para a gestão de equipamentos culturais.
Renan Santos propõe reformar a Rouanet, com critérios objetivos, limites de captação e editais para novos talentos. Defende ainda fundir Cultura e Educação, rever a governança do Iphan e reduzir o que considera viés ideológico na seleção de projetos. Na comunicação, é contrário a propostas de regulação da internet e propõe um Código de Imprensa.
No conjunto, os programas revelam que a disputa cultural de 2026 não se resume ao tamanho do orçamento: envolve quem decide, quem financia e qual deve ser a fronteira entre Estado, mercado e produção artística.