Tarcísio
Alex Fernandes / Governo do Estado de SP

O Governo de São Paulo, comandado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), tornou-se alvo de uma denúncia no sistema interamericano de direitos humanos após o Brasil ser acionado junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA). A representação questiona a condução de operações policiais realizadas no estado entre 2023 e 2024 e atribui responsabilidade direta à atual gestão paulista por supostas violações de direitos humanos.

A denúncia foi apresentada pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e pela Conectas Direitos Humanos, com foco em operações como a Operação Escudo e a Operação Verão, realizadas principalmente na Baixada Santista. Segundo as entidades, as ações resultaram em 84 mortes e mais de 2 mil prisões, com relatos de uso excessivo da força, entradas em domicílios sem mandado judicial e dificuldades na apuração independente das mortes ocorridas durante as intervenções.

De acordo com o documento encaminhado à CIDH, houve fragilização de mecanismos de controle e responsabilização, incluindo questionamentos sobre o uso de câmeras corporais por policiais e o arquivamento de investigações pelo Ministério Público de São Paulo em casos considerados sensíveis. As organizações sustentam que o conjunto dessas práticas contribuiu para um ambiente de baixa transparência e risco de impunidade institucional.

Resposta da Secretaria de Segurança Pública

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) rebateu a denúncia e afirmou que as operações Escudo e Verão tiveram como foco o enfrentamento direto ao crime organizado. Em nota, a pasta informou que as ações resultaram na prisão de importantes lideranças de facções criminosas, além da retirada de 119 armas de fogo das ruas, incluindo fuzis de uso restrito, e na apreensão de mais de 3,6 toneladas de drogas.

Segundo a SSP, “todas as ocorrências de mortes registradas durante as operações foram rigorosamente investigadas pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário”. A secretaria afirmou ainda que compartilhou com os órgãos de controle “todas as informações do conjunto probatório”, incluindo imagens captadas por câmeras corporais utilizadas pelos agentes envolvidos nas operações.

O governo paulista sustenta que as ações ocorreram dentro da legalidade e que os resultados obtidos contribuíram para enfraquecer estruturas criminosas que atuam em regiões estratégicas do estado.

Cortes no orçamento de combate ao crime organizado

A denúncia internacional ocorre em um contexto de reconfiguração das prioridades orçamentárias do governo estadual. Na Lei Orçamentária Anual de 2026, o programa voltado especificamente ao combate ao crime organizado sofreu uma redução significativa de recursos, passando de cerca de R$ 666 milhões para aproximadamente R$ 325 milhões, mesmo após recomposições parciais por emendas parlamentares.

Críticos apontam que a redução nesse programa específico afeta áreas estratégicas como inteligência policial, investigações complexas e integração entre forças de segurança. Para analistas do setor, o corte contrasta com o discurso de endurecimento no enfrentamento ao crime e pode comprometer políticas de médio e longo prazo voltadas à desarticulação de facções criminosas.

Entidades ligadas à área de segurança avaliam que a combinação de operações ostensivas de grande impacto, denúncias de letalidade policial e redução de recursos destinados à investigação e inteligência amplia o risco de uma política excessivamente baseada no confronto direto, com menor ênfase em prevenção, controle institucional e responsabilização.

Repercussão política e institucional para o governo

A tramitação do caso na CIDH transfere o debate para o plano internacional e obriga o Estado brasileirO, incluindo o governo federal e o governo de São Paulo, a prestar esclarecimentos formais sobre as políticas adotadas. No âmbito do sistema interamericano, a Comissão pode solicitar informações adicionais, promover audiências e emitir recomendações ao país.

A repercussão internacional amplia o alcance das críticas à política de segurança adotada pelo governo paulista e ocorre em um momento de crescente visibilidade política de Tarcísio de Freitas no cenário nacional. Para organizações de direitos humanos, o caso evidencia tensões entre o modelo de segurança pública adotado pelo estado, a alocação de recursos orçamentários e a necessidade de garantir direitos fundamentais.

Além dos efeitos jurídicos, o episódio tende a influenciar o debate político interno, especialmente no período de reorganização partidária e preparação para as eleições de 2026, quando temas como segurança pública, uso da força policial e prioridades de gasto devem ocupar papel central na agenda paulista e nacional.

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