Nos primórdios de minha juventude, esteve em alta no Brasil alguns coquetéis nacionais que são clássicos: bombeirinho, maria mole, rabo de galo, hi-fi, porradinhha. Gostava deles, mas eles eram ruins. Muito ruins. Ainda mais porque eu os bebia quente, no sol, com bases alcoólicas que mais pareciam álcool Zulu, durante o Gueri-Gueri ou outro carnaval de rua. Enfim, era uma delícia.
Lembro quando, no Fel, a Thatak sugeriu que eu tomasse um rabo de galo. Obviamente recusei. Na minha cabeça, eu tomaria um drink horroroso, eventualmente, quente, por um preço caro. Para tomar um Rabo de Galo não estaria naquele bar, mas sim em qualquer boteco de esquina. Recusei. Ela insistiu e eu acabei aceitando.
Foi ali que todo o meu preconceito com cachaça desmoronou. Bebi um coquetel que equilibrava o amargor do Cynar, a suavidade do Vermute e a força refrescante da Cachaça. Naquele momento, o Rabo de Galo passou a ser o meu coquetel de cachaça favorito. E passei a tomá-lo, inclusive, no boteco do Gilson, que me olhava com pavor ao me ver misturar os 3 ingredientes, acrescentar gelo e mexer com uma colher grande e, depois, já na mesa, com o dedo.
Quando fiz o curso básico de bartender na ABS, tive a honra de ter uma aula sobre coquetéis clássicos do Brasil com o Mestre Derivan, falecido em maio de 2023, e que foi, talvez, o principal incentivado de coquetéis com Cachaça que o Brasil teve. Ele iniciou uma campanha para que a IBA (sigla em inglês da Associação Internacional de Bartenders) reconhecesse nosso Rabo de Galo como um coquetel Clássico. A saber, o Brasil tinha apenas a Caipirinha como coquetel clássico.
Para tanto, primeiro, ele rodou o Brasil apresentando o Rabo de Galo, padronizou sua receita, incentivou os bares de alta coquetelaria a colocá-lo em seu cardápio e a oferecer a seus clientes, como a Thatak fez comigo. Isso tudo é um trabalho hercúleo, haja vista que até hoje os brasileiros pedem “caipirinha” de Vodka ou Sake (outro dia vi uma “caipirinha” de Campari).
Após a “fase nacional” passa-se a mostrar ao mundo o Rabo de Galo e, consequentemente, a nossa cachaça. Torneios e Campeonatos de Rabo de Galo foram feitos dentro e fora do país para dar a dimensão do coquetel. Inclusive, seu falecimento se deu durante o Concurso Internacional Rabo de Galo que ocorria em Portugal.
Em julho de 2023, quase 2 meses após o falecimento do Mestre Derivan, a IBA inclui o Rabo de Galo como coquetel clássico contemporâneo, padronizando sua receita. Isso é uma vitória do eterno Mestre, uma vitória da Cachaça e uma vitória da coquetelaria brasileira.
A receita agora imortalizada pela IBA leva Cachaça, Vermute e Cynar, mas na aula que tive com ele na ABS, a receita era um pouco diferente. Ele contava que a receita primária do Rabo de Galo não levava Cynar, era apenas Cachaça e Vermute. Com Cynar era um outro coquetel. Com o tempo, pegou-se o nome de um, com a receita do outro, e simplesmente, o Rabo de Galo ganhou um novo elemento.
O fato é que o Rabo de Galo hoje é um coquetel reconhecido como um Clássico Contemporâneo mundo afora e, tudo graças ao grande Mestre Derivan.
Receita de Rabo de Galo
60 ml de Cachaça
20 ml de Vermute Tinto
15 ml de Cynar
Pode acrescentar 2 Dashes de Angostura para dar um aroma
Misture tudo com gelo em num copo americano.
Finalize com casca de laranja Bahia
Copo: Copo Americano
Nível de dificuldade: ⭐️⭐️/5