Flávio Bolsonaro incorpora Tom Hanks ‘à espera de um milagre’, mas só resta pra ele o papel de ‘Náufrago’ das eleições

As primeiras 48 horas depois que veio a público o áudio de Flávio Bolsonaro pedindo a ajudinha milionária pra Daniel Vorcaro foram desastrosas, o que deixa claro que gestão de crise não é o ponto forte da família bolsonarista. Eles batem cabeça tentando justificar a relação de irmandade com o banqueiro e, para piorar, se contradizem ao querer explicar o inexplicável: como parte da bolada foi parar nas mãos do advogado de Eduardo Bolsonaro, o foragido, nos Estados Unidos?

A crise aberta pelas revelações do site Intercept representa um golpe duro para a pré-candidatura de Flávio, o que já faz o clã pensar num plano B para enfrentar Lula, em outubro. Michelle Bolsonaro? Rogério Marinho? Ciro Nogueira seria um querido, mas caiu em desgraça uma semana antes. 

Cinéfilo de primeira hora, Flávio Bolsonaro ainda tenta incorporar Tom Hanks em ‘À espera de um milagre’, mas os sucessivos erros dos últimos dois dias e seu desempenho horroroso na entrevista à Globo só deixam como opção o papel de ‘Náufrago’ das eleições.

Vejamos as razões. Sobre a relação com Vorcaro, o filho 01 diz que nunca foi próximo ao banqueiro. O ‘irmão, estou e estarei contigo sempre” seria só o jeito carioca de falar. A explicação não convence nem seus conterrâneos nem a Polícia Federal. E dificilmente convenceria o eleitorado. Na entrevista à Globo, Flávio Bolsonaro escorreu mais uma vez, agora ao vivo, ao justificar por que ele buscava ajuda financeira do Banco Master quando Vorcaro já era investigado pela PF. “Ele era acusado, mas tava torcendo pra ele esclarecer”. Irmão é assim mesmo. Torce e tá junto sempre. 

Mas o caminho e o destino dos 61 milhões de reais recebidos para bancar o filme do pai seguem sem qualquer explicação minimamente razoável. É o ponto em que mais batem cabeça. Flávio Bolsonaro diz que o dinheiro foi integralmente repassado para um fundo ligado à produção do filme. Segundo ele, uma relação privada e confidencial, sem qualquer irregularidade. 

 O problema é que a GOUP, produtora de “Dark Horse”, diz que não recebeu um centavo sequer de Daniel Vorcaro. Mário Frias, produtor e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, sustentou o mesmo argumento. Um dia depois, tentou passar pano com uma justificativa que fala muito, mas diz pouco: “não há contradição material entre os posicionamentos públicos sobre o financiamento do projeto, mas uma diferença de interpretação sobre origem formal do investimento”. A pergunta que fica: onde se aperta a tecla SAP para entender?

Mais estranho ainda é explicar como 2 milhões de dólares foram parar na conta de outro fundo, em nome do advogado Paulo Calixto, lá nos Estados Unidos. Calixto é advogado especializado em imigração e cuida da vida de Eduardo Bolsonaro desde que fugiu do Brasil. 

O dinheiro foi usado para bancar a vida de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos? “Não. Foi repassado integralmente para o filme”, diz Flávio. Mas o dinheiro foi parar na conta do fundo do advogado de Eduardo? “Foi”, admite o mesmo Flávio. O que um advogado de imigração tem a ver com a produção de um filme no Brasil? “Ele é de confiança do Eduardo e para abrir um fundo precisa de um advogado”, se complica ainda mais o mesmo Flávio. De imigração? 

O filho 01 conseguiu se enrolar sozinho, o que mostra um despreparo ímpar para quem pleiteia ser presidente da República. Resposta a resposta, foi vendo a própria pré-candidatura derretendo entre os dedos. Deveria ter optado por um novo desmaio, como fez no debate da Band, dez anos atrás, quando concorreu à Prefeitura do Rio.

Pouco a pouco, o esperado milagre ficando mais longe. E a ilha de Náufrago já cresce no horizonte. Só vai restar pra ele o irmão Wilson.

Mais de Ed Machado