O PSOL tem o molho e queremos a massa

O PSOL tem o molho. Tem sabor, tem identidade, tem capacidade, tem ousadia programática. Foi assim na defesa do fim da escala 6×1, na luta pela taxação dos super-ricos, na Tarifa Zero, no enfrentamento ao Congresso conservador e nas mobilizações que ajudaram a reposicionar o governo quando a popularidade caía. O partido demonstrou coragem quando votou contra medidas de austeridade e firmeza ao sustentar a linha de enfrentamento à extrema-direita.

Mas reconhecer que temos o molho não pode nos impedir de admitir um fato estratégico: ainda nos falta a massa.

A disputa política brasileira não é travada apenas no terreno da narrativa ou da coerência programática. Ela se dá na correlação de forças social, institucional e territorial. A extrema-direita opera como bloco. O capital financeiro opera como bloco. O agronegócio opera como bloco. A direita parlamentar atua como bloco. Se a esquerda responder apenas com identidade isolada, corre o risco de falar bonito e perder feio.

A derrota de Jair Bolsonaro não significou o fim do bolsonarismo. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva abriu um novo ciclo, mas não restaurou automaticamente uma hegemonia estável do campo popular. Vivemos uma polarização estrutural. E o pós-lulismo já começou a ser disputado.

O PSOL é parte dinâmica desse campo, mas ainda não é seu eixo organizador. Temos inserção relevante em movimentos sociais, influência nas redes, quadros parlamentares combativos e lideranças emergentes. Mas não temos, sozinhos, a capilaridade nacional, a estrutura sindical histórica, a presença consolidada em centenas de municípios médios e pequenos, nem a densidade institucional acumulada ao longo de décadas que outros partidos da esquerda possuem.

Molho sem massa não sustenta um prato principal e vira acompanhamento

A construção de um bloco histórico no sentido mais profundo do termo exige articulação orgânica entre base social ampla, direção política estável e capacidade institucional. Não basta ter razão; é preciso ter escala. Não basta ter programa; é preciso ter condições ter condições de implementar esse programa. Não basta ter identidade; é preciso ter musculatura.

É nesse ponto que a discussão sobre federação ou arranjos estratégicos ganha sentido. Não se trata de diluir o molho. Trata-se de garantir que ele componha um prato capaz de alimentar milhões. Unidade não é abdicação automática de identidade. Pode ser, ao contrário, o meio pelo qual uma identidade ganha dimensão nacional.

A história recente mostrou que governos progressistas se fortalecem quando assumem conflito. A popularidade do governo cresceu quando adotou linha mais altiva, quando nomeou adversários e aprovou medidas populares. Mas essa virada só se sustentou porque existia uma coalizão ampla que garantia governabilidade mínima. Sem base parlamentar, sem sustentação territorial e sem articulação orgânica, nenhuma linha combativa se sustenta.

O PSOL pode e deve seguir sendo polo de inovação programática, de radicalidade democrática, de conexão com juventude, mulheres, população negra e trabalhadores formais e informais. Mas se o objetivo é derrotar estruturalmente a extrema-direita e disputar a reorganização do campo popular no pós-lulismo, precisamos reconhecer que a batalha exige escala superior à nossa força isolada.

Ter duas federações pode ampliar candidaturas e capilaridade. Pode diversificar linguagens e ampliar presença territorial. Mas também é preciso avaliar se a fragmentação excessiva não enfraquece a capacidade de direção estratégica do campo progressista num momento em que o adversário está coeso e disposto a tudo para retomar o poder.

O dilema não é identidade versus unidade. É relevância estratégica versus conforto organizativo.

O PSOL tem o molho e isso é um patrimônio político precioso. É o tempero da coerência programática, da ousadia, da independência de classe e da capacidade de dialogar com as lutas do povo.

Mas, para enfrentar um bloco conservador estruturado, com base social, recursos e capilaridade institucional, não basta ter só o molho. Para disputar hegemonia nacional, precisamos também da massa — aquela que dá corpo, sustância e permanência ao projeto.

Se queremos ser protagonistas do próximo ciclo histórico, precisamos combinar sabor com escala. Ideia com estrutura. Radicalidade com bloco.

Hoje, o PSOL tem a faca e o queijo na mão para tomar uma decisão estratégica que pode fazê-lo crescer, ampliar sua influência e fortalecer o campo da esquerda. Mas é preciso dizer com clareza: a linha política defendida por alguns setores pode levar o partido ao isolamento, à redução de sua capacidade de incidência nacional e ao enfraquecimento do próprio projeto que diz defender.

O desafio histórico é combinar força social, densidade programática e enraizamento popular para que a esquerda não apenas resista, mas governe com profundidade e transformação.

Porque, na política real, não vence quem tempera melhor o debate. Vence quem constrói força suficiente para governar e transformar.

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