A Netflix abandonou formalmente sua proposta de aquisição da Warner Bros. Discovery, optando por não igualar a oferta de US$ 111 bilhões feita pela Paramount Skydance e, na prática, abrindo caminho para que a empresa de David Ellison assuma o controle de um dos conglomerados mais emblemáticos de Hollywood. A decisão encerra semanas de negociações de alto risco e sinaliza uma mudança decisiva tanto na estratégia corporativa quanto no sentimento do mercado.
O conselho da Warner Bros. Discovery determinou que a proposta revisada da Paramount Skydance, de US$ 31 por ação, constituía uma “proposta superior” ao acordo anterior da Netflix, que avaliava ativos-chave de estúdio e streaming em US$ 27,75 por ação. Essa decisão concedeu à Netflix quatro dias úteis para responder. Na quinta-feira (26), a empresa de streaming recusou-se a apresentar uma contraproposta.
Em comunicado conjunto, os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters enfatizaram a disciplina financeira. O acordo que haviam negociado, argumentaram, geraria valor aos acionistas e ofereceria um caminho claro para aprovação regulatória. No entanto, igualar os termos mais robustos da Paramount deixou de ser financeiramente atrativo. A aquisição, reiteraram, era “algo desejável pelo preço certo, não algo indispensável a qualquer custo”.
Wall Street pareceu endossar essa postura. As ações da Netflix dispararam quase 10% no after-market, ultrapassando US$ 92 após fecharem o dia a US$ 84,59. Desde o anúncio inicial do acordo, em dezembro, os papéis vinham sofrendo pressão, diante do ceticismo dos investidores quanto à escala e ao escopo da operação. A compra da Warner Bros. teria levado a Netflix a negócios intensivos em capital, como distribuição cinematográfica e canais a cabo tradicionais — áreas fora de seu modelo central de streaming.
O prêmio em disputa, contudo, era significativo. A Warner Bros. controla o universo da DC Comics, a franquia “Harry Potter”, a HBO — considerada por muitos o padrão-ouro da televisão — e a CNN, uma rede de notícias influente e politicamente polarizadora. A incorporação dessas marcas ampliaria substancialmente o portfólio de propriedade intelectual e a infraestrutura de produção da Netflix. Agora, a Paramount Skydance parece posicionada para combinar esses ativos aos seus próprios, pendente de aprovação regulatória.
A Netflix receberá uma multa rescisória de US$ 2,8 bilhões, amenizando o impacto financeiro. Ainda assim, o episódio evidencia tanto ambição quanto limites estratégicos. Ao sinalizar que poderia buscar escala transformacional além do crescimento orgânico, a empresa elevou as expectativas do mercado. Ao recuar, precisará convencer investidores de que sua trajetória independente permanece sólida.
Entendendo as entrelinhas
O contexto político também pesou. Em Washington, o acordo se desenrolou em ambiente sensível. A Paramount, proprietária da CBS News, era vista como tendo caminho regulatório mais fluido sob a administração do presidente Donald Trump. A tensão aumentou após críticas da conselheira da Netflix Susan Rice ao ex-presidente, que respondeu pedindo sua demissão, levantando dúvidas sobre a disposição do Departamento de Justiça em aprovar uma fusão já criticada por republicanos como anticompetitiva.
Da perspectiva do cinema como modelo de negócio, a vitória da Paramount, ainda pendente de escrutínio regulatório e da gestão de uma estrutura de dívida elevada, é melhor. Grandes figuras do cinema e sindicatos representativos de Hollywood já haviam manifestado predileção pela Paramount na disputa.
A bem da verdade, como já frisado em outra coluna, no mundo ideal a Warner continuaria sendo um estúdio autônomo. Mas não vivemos em um mundo ideal e o estúdio tem um histórico de vendas e fusões que pavimentaram o caminho trilhado hoje.
A era do streaming promoveu transformações paradigmáticas em Hollywood, intensificadas pela pandemia. Nos últimos dez anos vimos muitas fusões (a aquisição da FOX pela Disney sendo a mais exemplar) e o avanço das big techs no entretenimento com Amazon, Apple e a própria Netflix. Para a última, o aplauso imediato do mercado valida a disciplina fiscal. Resta saber se essa prudência será suficiente para sustentar o crescimento sem os cofres da DC, de Hogwarts e da HBO.