A quantidade de críticas que lideranças políticas recebem costuma ser proporcional ao seu tamanho. Poucos brasileiros receberam tantas, ao longo da história, quanto Luiz Inácio Lula da Silva. A grande maioria delas veio de setores conservadores. Ultimamente, porém, tem aparecido nas redes sociais um punhado de vozes da autoproclamada “esquerda radical” para dizer que o lulismo deve ser superado. É um bom debate.
Mas o que estamos chamando, exatamente, de lulismo? O lulismo de hoje é o mesmo que parte da esquerda, inclusive do PT, criticou durante a primeira experiência petista no governo federal e especialmente depois do impeachment de Dilma?
A resposta é não, por dois motivos. Em primeiro lugar, as conjunturas nacional e internacional mudaram de tal forma que a reprodução do arranjo social que sustentou o lulismo no poder no início dos anos 2000 é hoje impossível. Segundo, depois de um golpe parlamentar, uma prisão política de 580 dias e a ascensão da extrema-direita, Lula mudou – e sua forma de governar também.
Diante do que podemos chamar de lulismo original, diversos intelectuais e grupos de esquerda apontaram limites nas escolhas do governo. Suas críticas eram legítimas. Reconheciam os enormes avanços na vida do povo. Mas não deixavam de apontar as contradições de um governo apoiado na conciliação de classes.
A lógica do ganha-ganha, em que tanto o trabalho quanto o capital se beneficiavam, funcionou bem durante o período de bonança. A partir de 2014, porém, a crise reduziu o excedente econômico que sustentava essa prosperidade compartilhada — e o lulismo entrou em apuros.
Um dos raros consensos atuais na esquerda é o diagnóstico segundo o qual os milhões de trabalhadores que melhoraram de vida durante os governos petistas não mudaram sua forma de ver o mundo, pelo contrário. O lulismo original, para parafrasear Pepe Mujica, forjou consumidores atentos à sua condição individual, não cidadãos conscientes dos conflitos coletivos que organizam a sociedade.
Os movimentos sindical e popular tampouco conseguiram transformar essas mudanças em maior capacidade de organização e mobilização. Quando o conflito de classes explodiu e inflou um pato amarelo em frente à Fiesp, a esquerda se deparou com pouco engajamento para fazer frente à ofensiva liberal-conservadora.
Hoje, olhando para trás, parece quase trivial afirmar que Lula e Dilma poderiam ter avançado mais à esquerda. A correlação de forças daquele momento, que opunha governos com ampla popularidade a uma direita sem qualquer apelo programático, talvez permitisse conquistas sociais ainda maiores e uma politização mais profunda dos trabalhadores beneficiados pela ação do Estado.
Mas dois fatores foram decisivos para que nenhum desses movimentos ocorresse. De um lado, a chegada do PT ao governo levou boa parte dos quadros e da energia das forças progressistas para dentro da máquina. Havia menos gente disponível e menor prioridade para a organização popular. De outro, prevaleceu a crença de que era possível governar de forma duradoura conciliando interesses do capital e do trabalho. A história mostrou que não é bem assim.
Mas Lula parece ter aprendido a lição – e tem dado sinais disso.
Um novo lulismo para um novo momento
Se o campo popular não tinha um adversário à altura no primeiro lulismo, não podemos falar a mesma coisa hoje. Entre a queda de Dilma em 2016 e a eleição de Lula em 2022, a extrema-direita deixou de ser uma força coadjuvante para se tornar protagonista da política no Brasil e no mundo.
Com particularidades que variam entre países, organizações e lideranças, um populismo reacionário ascendeu como alternativa radical em meio à crise da ordem liberal.

No Brasil, quem catalisou esse fenômeno, por sorte ou por virtude, foi Jair Bolsonaro. A partir de 2018, ele e depois seus aliados deram voz a um sentimento difuso de mal-estar com um sistema político que não atende às expectativas das massas e ainda é impermeável ao seu controle.
Ao recolocar o conflito no centro da política, a extrema-direita se consolidou como um ator incontornável, capaz de informar, organizar e mobilizar amplos setores médios e também populares.
Diante dela, o lulismo, entendido como um método de governar baseado na conciliação de classes e na administração dos conflitos, tornou-se inviável. Não seria mais possível governar para todos ao mesmo tempo. Na atual conjuntura, o conflito é um imperativo, seja nos espaços institucionais, nas redes e nas ruas. Em uma sociedade polarizada material, afetiva e ideologicamente, não há alternativa política ao antagonismo.
Para além do contexto, o lulismo de hoje é outro porque a liderança que lhe dá nome também mudou. Marcado pela Lava Jato, pelo golpe parlamentar contra Dilma, pela prisão e pela eleição e a tentativa de golpe de Bolsonaro, o Lula que hoje preside o país está muito mais disposto a comprar brigas por pautas populares do que aquele que governou entre 2003 e 2010 – não porque tenha passado a ter um compromisso com as classes trabalhadoras que antes não existia, mas pela compreensão da necessidade política de fazê-lo.
A retomada de políticas destruídas sob Temer e Bolsonaro — como a valorização real do salário mínimo e a manutenção dos pisos constitucionais de saúde e educação — já exigiu embates duros contra o mercado e seus representantes no Congresso e na imprensa.
Depois disso vieram outros conflitos. A defesa da soberania frente à ofensiva norte-americana patrocinada pelo bolsonarismo contra a produção nacional e a tributação dos super-ricos para financiar a isenção de imposto de renda para as classes médias e populares abriram caminho.
Mais recentemente, entraram na agenda o fim da escala 6×1 e a regulamentação do trabalho por aplicativo. Soma-se a isso a disposição de retomar um projeto nacional de desenvolvimento que recoloca o Estado como protagonista do investimento em setores estratégicos, como minerais críticos, tecnologia e inteligência artificial, indústria energética, de transformação e defesa.
Lula, em resumo, reformou o lulismo — se é que ainda faz sentido dar o mesmo nome às suas duas experiências. Se antes o método era a conciliação, hoje o conflito está no centro de sua política. Seja contra os interesses de potências estrangeiras de olho em nossas riquezas naturais, dos super ricos avessos a qualquer tributação, dos grandes empresários aflitos com a redução da jornada de trabalho, das plataformas que temem direitos trabalhistas, das big techs que rejeitam qualquer regulação ou de uma extrema-direita ideológica aliada por conveniência a um centrão fisiológico.
Lula 3 é um governo de confrontos — e tão à esquerda quanto permitem as circunstâncias com que se defronta, para lembrar o Marx do 18 de brumário. Não é preciso ser muito inteligente para reconhecer as dificuldades de aprovar qualquer projeto de lei em um Congresso em que a esquerda tem menos de um terço dos votos. Ou, ainda mais importante, para lidar com uma correlação de forças desfavorável também na sociedade – e não apenas pela natureza subordinada e predatória das nossas elites.
O termo lulismo, cunhado por André Singer, descreve um modo de governar baseado na redistribuição sem ruptura que produziu um realinhamento eleitoral do PT com os setores mais vulneráveis da sociedade. Lula sempre perdia para a direita entre os eleitores mais pobres e ganhava na esquerda tradicional. Ao implementar um governo de redistribuição de renda sem rupturas, o reformismo lento, Lula se conectou finalmente com os mais pobres, ou subproletariado. O programa do lulismo original atendia sobretudo a essa classe, que por motivos materiais ligados à ausência de relações formais de trabalho e proteção sindical, foi sempre avessa a processos disruptivos de transformação.
O subproletariado deu forma ao lulismo enquanto fenômeno político e continua sendo sua base fundamental. Se ele já era conservador em termos econômicos, o avanço expressivo do pentecostalismo nos últimos anos adicionou uma camada simbólica de oposição à agenda de esquerda a boa parte de seus membros.
O cenário é complexo, portanto. De um lado, os setores que garantem competitividade eleitoral a Lula são resistentes a um processo de transformação que implique conflitos abertos entre o capital e o trabalho e a um programa amplamente progressista. De outro, é justamente a memória que esses setores têm dos efeitos das gestões petistas que permitiu a derrota de Bolsonaro em 2022 e o retorno de Lula à presidência. O povo mais pobre, conservador em muitos aspectos, reconhece em Lula uma liderança que está ao seu lado.
Diferente do que alguns parecem acreditar, não basta vontade política ao governo federal para ser de “esquerda radical” diante de um Congresso dominado pela aliança do bolsonarismo com o fisiologismo, de um mercado que se acha soberano e de uma base social que não espera exatamente a revolução socialista. O que não significa abandonar uma agenda de transformação — mas reconhecer que o caminho passa por criar condições para avançar, e não reivindicar a pureza de princípios anticapitalistas.
O atual esforço pela regulamentação do trabalho por aplicativo é emblemático. O governo Lula tem se mostrado disposto a enfrentar plataformas gigantes como Uber e Ifood para garantir um limite nas taxas cobradas pelas empresas, um conjunto de direitos e um piso de remuneração a trabalhadores que não contam com nenhum tipo de proteção. A negociação não é simples frente ao lobby das plataformas no Congresso e ao ideário neoliberal que parte importante da categoria incorporou nos últimos anos.
Ainda assim, parte da chamada “esquerda radical” critica o processo por não atender ao programa máximo dos entregadores. O resultado prático, a depender dela, será o desejado pelas empresas: nada. Em outras palavras, a manutenção de um mercado sem direitos e sem proteção social – mas também “sem imposto e com mais liberdade”.
Em vários casos, opor-se a avanços concretos em nome da pureza programática acaba reforçando a ideologia neoliberal que legitima lucros indecentes e invade a mente de quem trabalha sem direito algum.
Ainda assim, o governo segue disposto a comprar esse e outros enfrentamentos, apesar dos riscos políticos, econômicos e, por consequência, de popularidade que isso implica. É como se Lula tivesse compreendido que, na conjuntura atual, não há outro caminho além do antagonismo – e que é justamente por meio dele que se pode politizar uma base social historicamente resistente ao conflito de classes.
Contradições e desafios existem. Mas nesse momento Lula e esse novo lulismo são de longe o melhor caminho para transformar a realidade brasileira. Cabe aos movimentos, organizações e militantes de esquerda disputá-lo para empurrá-lo o máximo possível na direção de mais direitos e maior politização popular.
A disputa por um programa de esquerda, no entanto, só faz sentido se ele mesmo for possível e se conectar com as necessidades das classes populares de forma a sensibilizá-las. Para tanto, esse mesmo programa deve incidir na realidade e ter efeitos concretos. É fácil ser radical para alunos de ciências humanas e nas redes sociais. Fazê-lo serve para manter fiel um grupo capaz de fazer algum barulho no instagram, vender algumas camisetas e cursos na internet e eleger um punhado de parlamentares da dita “esquerda radical”.
Mas, na vida real – que importa para quem a política é uma questão de vida ou morte, e não uma questão de estética e performance, como diria o escritor Édouard Louis -, a alternativa real ao lulismo não está nos centros acadêmicos. Ela está em Flávio Bolsonaro, no centrão que distribui cestas básicas e obras superfaturadas para eleger prefeitos e parlamentares, na narrativa coach-empreendedora das redes, no tráfico de drogas, nas igrejas conservadoras.
Ao comprar brigas como raramente havia feito, Lula oferece os elementos que a esquerda de verdade precisa para organizar, formar e mobilizar os trabalhadores que se beneficiam do programa e das intenções do atual governo. Nunca foi tão claro para o povo de que lado Lula está — e é desse lado que quem se entende de esquerda deveria estar também.