Nesta semana de 8 de março, enquanto recebemos flores e parabenizações vazias, estreio esta coluna falando de memória, violência e responsabilidade. O que fazemos com os homens que dizem “eu fiz”? O feminismo mudou consciências, mas quem paga o custo dessa transformação? A conta não pode continuar recaindo sobre nós. Talvez esteja na hora de deslocar o medo e o constrangimento para o outro lado.
Dias atrás, minha amiga recebeu uma mensagem de um velho conhecido. Não se viam, nem se falavam, havia pelo menos 25 anos. Era um longo texto pedindo desculpas por algo que ele agora reconhecia como estupro.
Ela havia apagado o episódio da memória consciente, mas sabia que algo estranho tinha acontecido. Bastou a mensagem para que todo o mal-estar voltasse.
Não importa o quanto tenhamos sido bem-sucedidas em sobreviver: tudo pode ruir com uma memória, uma mensagem, uma foto. Em instantes, a mulher adulta fica vulnerável como aquela jovem era. É como se a violência fosse vivida novamente e pudesse acontecer de novo a qualquer momento, ainda que isso não faça o menor sentido e coerência com a vida atual.
Eu a lembrei de que ela já não era mais aquela mulher. Ela havia conseguido digerir, do jeito que pôde, a violência. Que era, hoje, outra pessoa. Não queria que ela se sentisse mal, mas como não se sentir? O mundo sequer mudou.
Refletimos juntas sobre o que achávamos da atitude desse homem. Aliás, esse homem era de esquerda, da luta, foi assim que ela o conheceu.
Por um lado, ele parece ter feito uma auto-reflexão motivado pela nova onda do movimento feminista. Reviu seu comportamento, procurou a vítima e pediu desculpas. Um longo texto de desculpas. E aqui, vou ser justa com ele, da forma que ele não foi com minha amiga: ele não tentou se justificar. Pelo menos, ele não disse “regret nothing”.
Mas, por outro lado, ele tinha esse direito, de invadir a vida dela mais uma vez e lembrá-la de algo tão dolorido? Quem disse que ela queria receber essa mensagem?
Será que queremos receber desculpas? Será que isso trará paz aos nossos corações ou aos corações deles? Será que é esse nosso chamado?
Se os estupradores e abusadores de ontem estão procurando mulheres para pedir desculpas, motivados por uma nova consciência sobre seu machismo, por que nós não deveríamos procurá-los para lembrá-los dos muitos horrores que cometeram?
Mas acho que isso tudo toca em um ponto que é o lugar dos homens nessa luta.
Enquanto alguns entram de cabeça no movimento misógino redpill, outros ignoram e tentam mostrar que “não é com eles”. E há também esse moço — e outros — que dizem: “fiz merda”. O que queremos dizer a eles? Talvez, mais do que mandar uma mensagem pedindo desculpas à sua vítima, seja contar aos seus parças e colegas o que fez. Talvez seja cobrar esses mesmos parças e colegas.
E talvez nós devêssemos, sim, ir atrás desses caras para lembrá-los de um passado não tão distante assim. Que eles tenham medo do que podemos fazer e trazer à tona; que eles tenham mal-estar; que eles paguem o preço. Os custos precisam mudar de lado.
Estamos juntas minha amiga, você não está só.