O mundo acompanha com crescente perplexidade a escalada de intervenções militares promovidas por Donald Trump. Nos primeiros meses do novo ciclo político, a política externa dos EUA voltou a recorrer com intensidade a instrumentos de força. A captura de Nicolás Maduro na Venezuela, as operações em território do México sob o argumento de combate ao narcotráfico e a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas revelam uma disposição de expandir a influência norte-americana por meios diretos.
Esses movimentos, porém, não se limitam à América Latina. A guerra em curso contra o Irã, oficialmente justificada pela tentativa de impedir o desenvolvimento de armas nucleares, também se insere em uma disputa mais ampla de influência global. O país persa mantém relações econômicas estratégicas com a China, que figura entre seus principais compradores de petróleo e parceiros comerciais. Assim, conter o Irã significa, em certa medida, limitar a expansão chinesa em regiões onde Washington tradicionalmente exerceu hegemonia, como o Oriente Médio.
Para compreender esse quadro, e explicitar porque ele é tema desta coluna de cultura, é útil recorrer ao conceito de Soft Power, formulado pelo cientista político Joseph Nye, professor de Harvard. Segundo Nye, o poder internacional não se exerce apenas por coerção militar ou pressão econômica — aquilo que se chama de hard power. Existe também uma forma de influência baseada na atração: a capacidade de um país moldar preferências e decisões de outros por meio de cultura, valores políticos e legitimidade institucional.
Durante décadas, os EUA foram a potência máxima desse tipo de influência. A indústria cultural, liderada por Hollywood, a música popular, as universidades e a imagem de um modelo democrático consolidaram um imaginário global profundamente marcado pela cultura americana. Essa capacidade de sedução permitiu que Washington orientasse parte da ordem internacional sem recorrer constantemente à força.
Esse cenário, contudo, começou a se alterar. O Brand Finance Global Soft Power Index, apresentado em janeiro durante evento paralelo ao Fórum Econômico, em Davos, aponta que os EUA registraram a maior queda de soft power entre os 193 países avaliados. Embora ainda liderem o ranking global, a pontuação norte-americana caiu para 74,9; apenas 1,5 ponto acima da China.
A deterioração é visível em diversos indicadores. A reputação do país despencou onze posições, enquanto métricas relacionadas a valores e percepção social sofreram retrações ainda mais acentuadas. Aspectos institucionais também foram afetados: confiança, estabilidade política, padrões éticos e até a percepção de compromisso com esforços globais contra as mudanças climáticas registraram quedas significativas.
O relatório atribui parte desse fenômeno ao chamado “efeito Trump”. A retórica do “America First”, que prioriza interesses nacionais e adota postura frequentemente confrontacional em relação a aliados e organismos multilaterais, teria produzido um descompasso entre a imagem histórica dos EUA e a percepção contemporânea de sua atuação internacional.
Paralelamente, a China ampliou sua própria capacidade de influência. Além do crescimento econômico, Pequim investe em tecnologia, infraestrutura e acordos comerciais em diversas regiões do mundo. Trata-se de uma estratégia que combina presença econômica, diplomacia e expansão cultural. É um tipo de soft power adaptado à lógica do século XXI.
Nesse contexto, a política externa de Trump pode ser interpretada como uma resposta a uma transformação estrutural do equilíbrio de poder. Se a influência cultural e simbólica norte-americana já não é suficiente para conter o avanço chinês, a alternativa passa a ser o uso mais direto do hard power.
O paradoxo é evidente. Ao recorrer com maior frequência à força militar para preservar sua posição global, os EUA podem acabar aprofundando exatamente o processo que buscam conter: a erosão de sua capacidade de atração e legitimidade internacional. A força pode produzir efeitos imediatos, mas dificilmente reconstrói prestígio.
A geopolítica contemporânea parece, portanto, caminhar para um cenário em que a disputa entre Washington e Pequim se desloca do campo da sedução cultural para o da confrontação estratégica. E, ironicamente, quanto mais os EUA recorrem à força para preservar sua influência, mais reforçam a percepção de que o tempo de sua hegemonia simbólica talvez esteja chegando ao fim.