Chegou ao fim a corrida pelo Oscar e, com ela, também se encerra a notável trajetória de “O Agente Secreto”. O filme de Kleber Mendonça Filho iniciou seu percurso internacional ainda em maio de 2025, no Festival de Cannes, de onde saiu consagrado com dois prêmios importantes: a Palma de Ouro de Direção para o cineasta pernambucano e a Palma de Ouro de Ator para Wagner Moura. Embora não tenha convertido essa repercussão em uma estatueta da Academia, o longa brasileiro encerra a temporada como um dos filmes que ampliaram a presença do cinema nacional no circuito global.
A grande consagração da noite, no entanto, ficou com “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson. O filme venceu seis das treze categorias para as quais havia sido indicado, incluindo melhor filme e direção. Trata-se de uma vitória que, em certo sentido, corrige uma lacuna histórica. Anderson é responsável por algumas das obras mais influentes do cinema americano contemporâneo, como “Magnolia”, “Boogie Nights”, “Trama Fantasma” e “Sangue Negro”, filmes que lhe renderam prestígio crítico, mas nunca a consagração máxima da Academia.
Ainda que “Uma Batalha Após a Outra” não seja necessariamente o ponto mais alto de sua filmografia, era provavelmente o melhor entre os indicados de 2026. Trata-se de um filme profundamente político, o que torna sua vitória particularmente significativa no contexto contemporâneo. A narrativa explora o inconformismo existencial diante de uma nação opressiva — um tema que ressoa em um momento em que muitos enxergam os EUA de Trump como uma potência cada vez mais intervencionista no cenário internacional.
Além de melhor filme e direção, o longa levou roteiro adaptado, montagem, ator coadjuvante para Sean Penn e a estatueta da nova categoria de seleção de elenco. O conjunto de prêmios consolida a percepção de que Anderson finalmente ingressa no panteão formal dos grandes autores reconhecidos pela Academia.
Seu principal concorrente na noite foi “Pecadores”, dirigido por Ryan Coogler. O filme chegou ao Oscar com impressionantes dezesseis indicações, o maior número da história da premiação, e terminou a noite com quatro estatuetas: ator para Michael B. Jordan, roteiro original para Coogler, além de trilha sonora e fotografia.
A vitória de Jordan carrega também um peso histórico. Ele se tornou apenas o sexto ator negro a vencer a categoria de melhor ator, um dado que continua a expor a desigualdade estrutural na história do Oscar. Foi, no entanto, o quinto neste quarto de século. Já na fotografia, a vitória de Autumn Durald Arkapaw representa um marco ainda mais expressivo: em 98 anos de premiação, foi a primeira vez que uma mulher venceu a categoria; e também a primeira vez que uma pessoa negra recebeu esse reconhecimento.
Esses resultados revelam um Oscar que tenta equilibrar duas forças simultâneas. De um lado, a Academia busca reafirmar um compromisso com diversidade e representatividade. De outro, mantém sua tradição de valorizar um cinema mais clássico em termos industriais. Um exemplo disso foi o desempenho de “Frankenstein”, que levou três estatuetas técnicas — figurino, direção de arte e maquiagem — reafirmando a permanência de um certo imaginário hollywoodiano tradicional.
Na categoria de filme internacional, onde havia grande torcida brasileira por “O Agente Secreto”, o vencedor foi o norueguês “Valor Sentimental”, dirigido por Joachim Trier. Embora a frustração brasileira seja compreensível, trata-se de uma escolha difícil de contestar. O longa de Trier dialoga diretamente com um tipo de cinema que costuma seduzir os votantes da Academia: um filme introspectivo que utiliza a própria linguagem cinematográfica para investigar traumas familiares e relações afetivas complexas.
Essa escolha também conversa com um dos fios narrativos mais interessantes da cerimônia. Ao longo da noite, a Academia demonstrou preocupação recorrente com o futuro do cinema. Houve esquetes brincando com migração transmissão do Oscar para o YouTube a partir de 2029, imaginando uma cerimônia constantemente interrompida por anúncios absurdos. Discursos mencionaram o avanço da inteligência artificial e seus impactos sobre Hollywood, além de críticas políticas ao cerceamento da liberdade de expressão e à ascensão de líderes que, embora eleitos democraticamente, adotam posturas autocráticas — uma referência implícita a figuras como Donald Trump.
No balanço geral, foi um Oscar interessante, ainda que irregular. A cerimônia funcionou bem e a distribuição dos prêmios parece relativamente justa. O ponto mais frágil esteve talvez nas categorias de atuação, cujo conjunto de indicados figurava entre os mais frágeis da última década. O que refletiu, naturalmente, no conjunto de vencedores. A exceção foi justamente o prêmio de ator coadjuvante para Sean Penn, cuja vitória o coloca em um clube raríssimo: ele se torna apenas o quarto ator a conquistar três Oscars competitivos, ao lado de Daniel Day-Lewis, Jack Nicholson e Walter Brennan.
Para o Brasil, o saldo também é positivo. Mesmo sem estatueta, a presença de “O Agente Secreto” em categorias relevantes e a crescente projeção internacional de Wagner Moura reforçam a inserção do cinema brasileiro no circuito global.
Talvez o aspecto mais animador da noite seja outro. O Oscar de 2026 terminou polarizado por dois cineastas que, cada um à sua maneira, defendem um cinema autoral dentro da indústria — Paul Thomas Anderson e Ryan Coogler. Em uma era marcada por franquias, algoritmos e incertezas sobre o futuro das salas de cinema, não é pouco que Hollywood ainda celebre, em sua maior premiação, filmes que nascem sobretudo da visão singular de seus autores.