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TV Morena

Uma mulher trans de 29 anos foi vítima de violência envolvendo de tortura, espancamento e ameaça de morte no sábado (14), em Ponta Porã (MS), após ser atraída para uma emboscada sob a promessa de receber pagamento por um trabalho. Durante a sessão de violência, teve uma suástica marcada no corpo com uma faca aquecida. “Eu vi a morte de perto, gritava socorro e ninguém me ouvia”, relatou a vítima em entrevista à imprensa local.

O caso levou à prisão do namorado da vítima, Leonardo Duartes, de 22 anos, e de um casal para quem ela prestava serviços, Jackson Tadeu Vieira, de 38 anos, e Laysa Carla Leite Machinsky, de 25 anos. Os três foram detidos no domingo (15), e a Justiça converteu as prisões em preventivas. A investigação está sob responsabilidade da Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM), com apuração de crimes que incluem tortura, tentativa de homicídio e possível motivação por ódio.

A denúncia ganhou repercussão nacional nesta quarta-feira (18), após manifestação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que classificou o episódio como uma “sessão de TORTURA” e destacou o uso da suástica como marca de desumanização. “Um símbolo de ódio que demonstra a desumanidade dos agressores”, afirmou.

Emboscada e participação do namorado

Segundo o boletim de ocorrência e relatos divulgados por veículos como g1 MS e TV Morena, a vítima estava em casa quando foi convencida pelo namorado a ir até a residência do casal para receber um pagamento atrasado. Ao chegar ao local, foi levada a um cômodo isolado, onde o companheiro já a aguardava junto ao patrão.

“Quando eu entrei no escritório meu namorado estava com uma fita na mão e perguntou se eu queria morrer em pé ou deitada”, relatou. A fala marca o início de uma sequência de agressões que, segundo a vítima, ocorreram de forma coordenada entre os três envolvidos.

Ela afirma que foi imobilizada, sofreu socos, chutes, golpes com taco de sinuca e cabo de vassoura, além de agressões diretas no rosto, no estômago e na cabeça. Em determinado momento, os agressores destruíram seu celular, cravando uma faca no aparelho para impedir que pedisse ajuda.

A participação do namorado no crime é um dos elementos que mais impactam o caso, segundo investigadores ouvidos por veículos locais, por indicar quebra de confiança e facilitação da emboscada.

Ritualização da violência e marca com suástica

De acordo com o relato, após a sequência de agressões físicas, o patrão teria ordenado que a esposa aquecesse uma faca. Com o objeto em alta temperatura, os agressores marcaram uma suástica no corpo da vítima.

A presença do símbolo nazista, associado historicamente a práticas de perseguição e extermínio, é tratada por autoridades e especialistas como um indicativo de violência com componente de ódio e humilhação, ampliando a gravidade do caso para além da agressão física.

Durante a tortura, a vítima afirma que questionava o motivo das agressões, mas não recebeu resposta. “Eles só davam risada. Parece que estavam todos endemoniados”, relatou.

Fuga, ameaça e hospitalização

A vítima conseguiu escapar após ser liberada sob ameaça de morte. Segundo seu depoimento, o patrão teria dito que ela deveria ir embora e não contar nada a ninguém. Em estado de choque, buscou ajuda na rodoviária da cidade e foi encaminhada ao hospital regional de Ponta Porã.

Os exames identificaram traumas na cabeça, no olho e no braço, além da queimadura causada pela faca. Ela deve passar por ao menos três cirurgias.

“Nem tenho tatuagem no corpo e eu sou marcada por uma maldade humana que fizeram comigo. Vou ter que trocar a minha pele”, afirmou.

Além dos danos físicos, a vítima relata impactos psicológicos severos. “Eu não consigo dormir, tenho pesadelos. Tudo ficou pesado”, disse.

Versões dos acusados e lacunas sobre a violência

Em depoimento à polícia, Jackson Tadeu Vieira afirmou que houve uma discussão entre a vítima e o namorado, que teria evoluído para agressões, e que ele e a esposa tentaram intervir. A versão contrasta com o relato da vítima e não explica a marca de queimadura em formato de suástica.

O suspeito também mencionou que teria pago antecipadamente por serviços não realizados, mas não apresentou justificativa para a violência extrema registrada.

Até o momento, as defesas dos envolvidos não apresentaram posicionamento detalhado à imprensa.

Repercussão e contexto nacional

A denúncia pública feita por Erika Hilton ampliou o alcance do caso e inseriu o episódio no debate nacional sobre violência contra pessoas trans. O Brasil figura há anos entre os países com maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo, segundo organizações como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Casos de violência com sinais de tortura, humilhação e uso de símbolos de ódio têm sido apontados por pesquisadores como parte de um padrão de desumanização, que dificulta o acesso à proteção institucional e amplia a vulnerabilidade dessa população.

O caso de Ponta Porã, pela brutalidade e pelos elementos envolvidos – emboscada, participação de pessoa próxima e marcação com símbolo nazista – passa a ser tratado como um dos episódios mais graves recentes desse tipo de violência no país.

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