
A Argentina encerrou 2025 com taxa de desemprego de 7,5% nos 31 principais aglomerados urbanos medidos pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), segundo relatório divulgado na última seman. O número representa alta de 1,1 ponto percentual em relação ao mesmo trimestre de 2024, quando a taxa era de 6,4%, e de 0,9 ponto em comparação com o terceiro trimestre de 2025, de 6,6%. O percentual foi o mais alto para um quarto trimestre desde a pandemia. Ao mesmo tempo, o próprio INDEC mostra que não se trata de um recorde histórico: no primeiro trimestre de 2025, a taxa havia chegado a 7,9%.
Em termos absolutos, o relatório do INDEC estima cerca de 1,1 milhão de desempregados dentro de um universo de 14,6 milhões de pessoas economicamente ativas nos aglomerados pesquisados. A taxa de atividade ficou em 48,6%, a de emprego em 45,0%, e a informalidade permaneceu em 43,0% dos ocupados. O dado sugere um mercado de trabalho que não colapsou, mas que também não absorveu de forma consistente a recuperação macroeconômica defendida pelo governo de Javier Milei.
Onde a alta aparece com mais força
O aumento do desemprego foi mais agudo entre os jovens. Segundo o INDEC, entre 14 e 29 anos, a taxa de desocupação subiu 4,1 pontos percentuais entre as mulheres e 4,5 pontos entre os homens na comparação com o trimestre anterior. Regionalmente, a situação mais pressionada aparece na Grande Buenos Aires, com desemprego de 8,6%, acima da média nacional dos aglomerados urbanos. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, a taxa ficou em 8,0%; nas menores, em 4,7%.
A deterioração do emprego formal ajuda a explicar esse quadro. Dados da Bloomberg informam que o setor privado formal perdeu mais de 200 mil empregos assalariados desde a posse de Milei, o equivalente a cerca de 3% do total. A Reuters já vinha registrando esse movimento desde 2025, ao notar que parte do ajuste foi amortecida por expansão do trabalho autônomo e informal, e não por uma recomposição robusta do emprego protegido.
Essa dinâmica produz um mercado de trabalho mais fragmentado. Em reportagem publicada em fevereiro, o El País English apontou que, desde o fim de 2023, a economia argentina perdeu quase 300 mil postos de trabalho, com dois terços dessas perdas concentradas em empregos formais assalariados, especialmente em indústria, construção e comércio. O mesmo texto observa que parte dos trabalhadores expulsos desses setores vem sendo reabsorvida em ocupações mais precárias, inclusive em plataformas.
O paradoxo de Milei: PIB em alta, emprego pressionado
A elevação do desemprego ocorre num momento em que o governo comemora melhora de indicadores macroeconômicos: o PIB argentino cresceu 4,4% em 2025, após retração de 1,3% em 2024. O crescimento foi puxado principalmente por agro, mineração e serviços financeiros, enquanto administração pública, saúde e pesca registraram queda. Em paralelo, a inflação mensal caiu para 2,9% em fevereiro de 2026, segundo a própria Reuters, bem abaixo dos patamares de dois dígitos vistos no início do governo.
O contraste entre estabilização macroeconômica e mercado de trabalho mais frágil está no centro do debate argentino. A Reuters relatou em maio de 2025 que o recuo da inflação trouxe previsibilidade para parte das famílias e permitiu recuperação real em segmentos do setor privado, mas também registrou perda de mais de 15% no salário real do funcionalismo no primeiro ano de Milei, além de queda superior a 10% no consumo de supermercados. A mesma reportagem associou o enfraquecimento do emprego a cortes em obras públicas, demissões no Estado e maior concorrência de importados em alguns ramos industriais.
Na prática, o governo conseguiu melhorar preços e contas públicas mais rápido do que conseguiu recompor empregos. É esse descompasso que ajuda a explicar por que a taxa de desemprego sobe mesmo com a volta do crescimento do PIB.
As reformas recentes aprovadas por Milei na Argentina
Foi nesse ambiente que Milei obteve, em fevereiro de 2026, uma de suas principais vitórias legislativas: a aprovação final da reforma trabalhista. Segundo Reuters e AP, a medida foi aprovada pelo Senado na sexta-feira (27), depois de já ter passado pela Câmara, e foi apresentada pelo governo como um instrumento para atrair investimento e ampliar o emprego formal.
O texto aprovado altera pontos centrais da relação de trabalho. De acordo com a Reuters, a reforma cria um fundo de indenização financiado pelo empregador, muda a forma de cálculo das verbas rescisórias, flexibiliza regras de contratação, altera o sistema de férias, permite estender a jornada padrão de oito para 12 horas e autoriza pagamento de salários em moeda estrangeira. Também impõe novas exigências para greves em serviços classificados como essenciais, com manutenção mínima de operação durante paralisações.
Antes da aprovação final, a Reuters já registrava que o governo chamava o projeto de “modernização trabalhista” e o vinculava à tentativa de formalizar uma economia em que mais de 40% dos trabalhadores atuam fora das regras formais. Sindicatos, por outro lado, sustentavam que o pacote estreitava proteções históricas, limitava o direito de greve e reduzia o poder de negociação dos trabalhadores. A reação levou a protestos e a uma greve nacional organizada pela CGT em fevereiro.
Para o governo, a aposta é que reduzir custos de contratação e demissão facilite novas admissões. Para críticos, o efeito imediato tende a ser outro: tornar o ajuste do mercado de trabalho mais rápido antes que a economia gere postos suficientes para absorver quem perdeu renda e ocupação. A própria cobertura do Buenos Aires Times observou que economistas não esperam ganho rápido de emprego enquanto consumo, atividade doméstica e setores intensivos em mão de obra seguirem pressionados.
O que o dado de março mostra
O relatório do INDEC divulgado na quarta-feira (18) indica, portanto, um mercado em transição. A economia argentina já não está sob a mesma pressão inflacionária de 2024, mas o ajuste fiscal, a abertura econômica e a recomposição setorial ainda não produziram melhora equivalente no emprego. O resultado é um quadro em que o desemprego volta a subir, a informalidade permanece elevada e os jovens concentram a pior parte da deterioração.
O dado também enfraquece a ideia de que a recuperação macroeconômica, por si só, estaria sendo distribuída de maneira homogênea. No momento em que Milei avança com sua agenda de reformas, a taxa de 7,5% funciona como sinal de alerta: o ajuste mostrou resultados em inflação e atividade, mas ainda não resolveu a principal pergunta social aberta desde o início do governo: quem, de fato, está ficando de pé no mercado de trabalho argentino.