Entre o Altar e o Algoritmo

Em 2024, Pablo Marçal chegou ao segundo turno da disputa pela prefeitura de São Paulo sem partido, sem mandato anterior e sem o apoio de Jair Bolsonaro — e quase venceu. Dois anos depois, nas eleições de outubro de 2026, São Paulo elegerá 70 deputados federais. A disputa é, por definição, fragmentada — mas há um nicho eleitoral que se tornou estrutural na política brasileira e que, neste ciclo, está mais vago do que nunca: o candidato antissistema que combina alcance digital massivo, retórica de ruptura institucional e base religiosa consolidada. Com Carla Zambelli inelegível, Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e Ricardo Salles migrando para o Senado, a pergunta que domina os bastidores políticos paulistas é simples e urgente: quem será o próximo Marçal?

Um Modelo que a Eleição Municipal de 2024 Validou

Em outubro de 2024, Pablo Marçal chegou ao segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo sem estrutura de partido tradicional, sem aliança com o chamado centrão e sem qualquer mandato anterior. Sua campanha foi construída essencialmente a partir de três pilares: uma audiência digital de dezenas de milhões de seguidores, uma narrativa de confronto aberto com o establishment político e judicial, e uma base evangélica que progressivamente aderiu ao seu discurso de autoajuda associado à fé cristã.

O resultado — quase 1,7 milhão de votos no primeiro turno — revelou que esse modelo não é acidental. É replicável. E, diferentemente de uma eleição majoritária, onde o candidato precisa vencer a maioria, nas eleições proporcionais à Câmara dos Deputados o modelo se torna ainda mais eficiente: basta mobilizar uma fatia específica do eleitorado com intensidade suficiente.

Em São Paulo, o quociente eleitoral para deputado federal gira historicamente em torno de 400 mil votos para o partido — o que significa que um candidato com dois a três milhões de seguidores engajados e capacidade de converter audiência em voto consegue se eleger com relativa folga, puxando colegas de chapa junto.

O Vácuo que se Abriu no Campo Bolsonarista Paulista

Para entender por que 2026 representa uma oportunidade excepcional para candidatos com esse perfil, é necessário olhar para o que se perdeu no campo bolsonarista paulista desde a última eleição federal.

Em 2022, os três maiores puxadores de votos do PL em São Paulo somaram mais de 2,3 milhões de votos: Carla Zambelli (946 mil), Eduardo Bolsonaro (741 mil) e Ricardo Salles (634 mil). Nenhum dos três estará disponível para o mesmo papel em 2026. Zambelli foi declarada inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral. Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos sem previsão de retorno e enfrenta questionamentos jurídicos sobre seu domicílio eleitoral. Salles migrou para o Partido Novo e orbita uma candidatura ao Senado.

Esse vácuo é concreto e mensurável: são mais de dois milhões de votos que precisam encontrar novos destinos. Uma parte migra naturalmente para outros candidatos já estabelecidos. Mas uma parcela significativa — o eleitorado mais radicalizado, o que votou neles por identidade e não por programa — está ideologicamente disponível para quem oferecer o discurso certo com a intensidade certa.

Pablo Marçal é o nome mais óbvio — e o mais incerto. Condenado por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2024, ele está inelegível até 2032. Sua defesa tenta reverter as condenações no TSE, e o próprio Marçal confirmou intenção de concorrer em 2026. O cenário depende exclusivamente da reversão judicial. O que não muda, independentemente do desfecho jurídico, é o efeito político: cada decisão da Justiça Eleitoral contra ele alimenta a narrativa de perseguição, elemento central na construção de sua persona como candidato antissistema.

A Anatomia do Candidato Antissistema Digital-Evangélico

O perfil que emerge desse cruzamento — influencer digital com enraizamento evangélico — não é novo na política brasileira, mas ganhou sofisticação técnica e financeira nos últimos quatro anos. Seus traços distintivos são cada vez mais reconhecíveis.

1. Audiência em rede como ativo eleitoral primário

Diferente dos políticos tradicionais, que constroem base eleitoral via mandato, indicação de cargos e emenda parlamentar, presença em eventos, atuação reconhecida no território e articulação política com lideranças, o candidato-influencer digital já chega à campanha com audiência consolidada. Seguidores no YouTube, Instagram, TikTok e X são convertidos em doadores via Pix, em voluntários de campanha e, finalmente, em votos.

Esse modelo reduz drasticamente a dependência do fundo partidário e amplia a liberdade de discurso em relação aos candidatos tradicionais. A partir de 2018, com mais intensidade, influencers passaram a ocupar diretamente o espaço político, forçando a classe política a se adaptar: digitalizar mandatos, buscar viralização e, em muitos casos, tentar se tornar — ou simular — influenciadores. A lógica é simples e poderosa: transformar seguidores em eleitores.

2. Igreja como infraestrutura logística e financeira

A parceria com denominações evangélicas vai muito além do palanque de culto. As grandes igrejas neopentecostais paulistas oferecem algo que nenhuma estrutura partidária consegue replicar: capilaridade territorial, mobilização de base em horário nobre, mecanismos de arrecadação já incorporados ao comportamento do fiel e uma linguagem emocional que facilita a conversão do engajamento espiritual em engajamento político.

O fenômeno das “igrejas digitais” — congregações sem templo físico, organizadas em torno de influencers cristãos — amplifica ainda mais esse alcance, chegando ao chamado “cristão desigrejado”, que não frequenta um espaço físico mas consome conteúdo religioso intensamente nas redes.

A linguagem da autoajuda, típica do universo evangélico e do coaching, oferece uma ponte perfeita entre fé, empreendedorismo e política: você pode, você merece, eles não querem que você vença.

3. O discurso de ruptura como proposta

O candidato antissistema não precisa de proposta legislativa elaborada ou de plano de governo factível. Precisa de inimigo nomeado — o STF, a mídia tradicional, “agenda woke”, o PT, o establishment — e de uma narrativa pessoal de sucesso que ressoe com o sentimento de exclusão de parcelas da população que se veem mal representadas pela política convencional.

O combate à “agenda woke” é um dos elementos que une o discurso antissistema ao universo evangélico conservador: ambos compartilham a leitura de que essa agenda seria imposta por uma elite cultural de esquerda e que o homem comum — trabalhador, religioso, periférico — é sua principal vítima. Isso explica por que candidatos do perfil Marçal conseguem mobilizar simultaneamente o ressentimento econômico e o conservadorismo moral com tanta eficiência.

Por Que 2026 É o Ciclo Ideal para Esse Perfil Emergir

Três fatores estruturais se somam para tornar 2026 o ciclo mais propício ao surgimento — ou consolidação — de candidatos com esse perfil em São Paulo.

O primeiro é a renovação histórica do Senado. Com dois terços das cadeiras em disputa — 54 vagas — os maiores nomes da direita paulista estão concentrados na corrida ao Senado: Derrite, Salles, Feliciano, Mello Araújo. Isso esvazia o campo federal de âncoras eleitorais fortes no espectro conservador, criando espaço para novos puxadores.

O segundo é a maturidade das ferramentas de campanha digital. Em 2026, o ecossistema está mais sofisticado: podcasts com dezenas de milhões de downloads, canais no YouTube com audiência superior à de emissoras de TV aberta, e comunidades no WhatsApp que funcionam como rádio tribal de campanha. Candidatos com audiência orgânica têm vantagem competitiva real.

O terceiro fator é o descontentamento transversal. O eleitorado desencantado não migrou integralmente para o bolsonarismo clássico. Há uma camada — jovem, periférica, empreendedora informal — que votou em Lula em 2022 mas que hoje sente desapontamento com o governo e não se identifica nem com o establishment de esquerda nem com a velha direita. Esse eleitorado flutuante é o território mais cobiçado por um candidato que consiga falar em pautas econômicas com linguagem popular e legitimidade religiosa.

O Risco de Fragmentação

O principal obstáculo para o sucesso desse modelo em 2026 é, paradoxalmente, sua própria popularidade. Quando muitos candidatos disputam o mesmo nicho eleitoral com discursos similares, os votos se fragmentam e nenhum se elege com folga — ou pior, o quociente não é atingido e os votos de todos são desperdiçados.

Esse é o cálculo que partidos como PL e Republicanos estão tentando fazer agora: concentrar o voto antissistema em um ou dois puxadores fortes, em vez de dispersá-lo em dez candidatos medianos.

Há ainda um fator de risco regulatório: o TSE vem apertando as regras sobre desinformação e uso de inteligência artificial em campanhas, e candidatos que dependem de conteúdo digital agressivo estão mais expostos a cassações e multas. O que foi possível em 2022 pode ser mais difícil em 2026.

O Molde Existe, Falta o Nome

A pergunta não é se vai surgir um candidato com perfil antissistema digital-evangélico concorrendo à Câmara Federal por São Paulo em 2026. Esse candidato — provavelmente mais de um — certamente vai aparecer. A pergunta relevante é qual deles conseguirá consolidar o nicho, transformar audiência em votos e, eventualmente, em mandato.

O que os dados de mobilidade social, a análise do modelo de negócios dos coaches e a trajetória de Marçal revelam em conjunto é que esse fenômeno não é superficial. Ele está enraizado em desigualdades reais, alimentado por um ecossistema informacional sofisticado e articulado por uma visão de mundo coesa — na qual o Estado é o inimigo, a meritocracia é a única saída e o candidato é o herói que vai vencer o sistema.

O molde está pronto. O vácuo eleitoral está aberto. A infraestrutura de igrejas e plataformas digitais está mais desenvolvida do que em qualquer ciclo anterior. O que falta é o nome que vai preencher tudo isso — e, dadas as circunstâncias, há boas razões para acreditar que ele vai aparecer bem antes de outubro.

Nota metodológica

Este artigo é uma análise preditiva baseada em dados eleitorais públicos, pesquisas de intenção de voto e dinâmicas políticas observadas até abril de 2026. As candidaturas para a Câmara dos Deputados só serão oficializadas nas convenções partidárias entre 20 de julho e 5 de agosto de 2026. O estudo sobre mobilidade social citado é: Britto, D., Fonseca, A., Pinotti, P., Sampaio, B. e Warwar, L. (2024), Gappe/UFPE em parceria com Universidade Bocconi. O artigo de referência sobre Marçal e a direita antissistema é: Jacob, M. (2024), “A direita antissistema: o que nos aguarda em 2026”, Teoria e Debate, Fundação Perseu Abramo.

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