A questão da escuta

Dentre as frases populares, daquelas que escutamos desde criança, uma que anda rara é “fulano é um bom ouvinte”. Essa arte de ficar parado, sem fazer nada, abstendo-se de tudo e contentando-se apenas com a missão de absorver o que vem do outro. Ser ouvinte é difícil: são momentos inquietantes, onde sua cabeça funciona a mil, só esperando a chance de acabar com essa quaresma e partir para assumir o controle, jogando para fora tudo o que é palavra possível que vinha se acumulando enquanto o outro tagarelava sem parar. 

Pode-se dizer que a psicanálise tem em sua base a escuta. Enquanto médicos e cientistas se debatiam com análise de fenômenos que explicassem os sintomas agudos das histéricas no século XIX, Freud parte para uma outra abordagem, de ouvir o que as pacientes tinham a dizer. Tudo bem, no começo ele tenta um atalho para o inconsciente através da hipnose, mas, depois de perceber todos os problemas que o método trazia consigo, adota outra estratégia, de simplesmente escutar – com um empurrãozinho da paciente Anna O. (pseudônimo de Bertha Pappenheim), que era atendida pelo colega de Freud, Josef Breuer, e em uma das sessões teria se recusado a ser hipnotizada e dito “eu quero falar”.

Mas e hoje, será que, como Anna, queremos falar? Há essa necessidade de pôr para fora o que não está sendo escutado? Quando o poeta Charles Baudelaire nos trouxe o choque sensorial que a nova Paris dava às pessoas, pulsando com sua modernidade e aceleração num momento pouco anterior a Freud, mal sabia ele o que estava por vir. O nosso ritmo não é mais limitado pelo quanto um cavalo pode acelerar uma carruagem, mas sim o quão rápido o dedo consegue jogar para cima uma tela no Instagram. 

Aliás, a “evolução” das redes sociais serve de reflexo para enxergarmos o pé em que estamos nessa nossa corrida rumo ao frenético. O Facebook ainda tinha texto, mas com o tempo foi por léguas superado pelo Instagram e TikTok. Ou seja, vídeos. Ninguém mais tem saco para ler algo. Leva muito tempo, frustra por não entregar a dopamina na velocidade que precisamos. Se você tiver menos de 18 anos então, isso é inquestionável.

A solução seria então marcarmos encontros presenciais e tudo estaria resolvido? Será? Talvez o nosso psiquismo tenha sido, com o tempo, condicionado à constante necessidade de afirmação daquilo que gostamos e dislike para aquilo que reprovamos. É o nosso próprio algoritmo interno em ação.

Isso tudo me faz pensar que a análise é hoje mais necessária do que jamais foi. Porque precisamos de uma escuta, mas não qualquer escuta. Dois conceitos fundamentais aqui precisam ser explicados, a associação livre e a atenção flutuante. Associar livremente seria algo como dizer o que vem à cabeça, sem se preocupar se o que está sendo dito faz sentido ou não, se é relevante ou não. A escuta flutuante seria a contrapartida para isso, um jeito de escutar sem se fixar num ponto, num julgamento, num fechamento de ideias sobre o que está sendo falado. 

Lacan no seminário VII afirma que a principal ética a ser seguida em análise é a ética do desejo – do desejo do analisando, não do analista. Dito de outra forma, o analista não está lá para adequar seu paciente a normas sociais, a valores dele analista, a um ideal de normalidade. Ao contrário, seu trabalho é ser terreno livre para que escape o desejo inconsciente do analisando, aquilo que nem o sujeito sabe que deseja, mas que habita suas profundezas. Nesse falar desenfreado da análise, em que a pessoa chega a se justificar com “nem sei por que estou dizendo isso”, há uma chance de irromper o que desejamos de mais secreto, de mais proibido, guardado até de nossa própria consciência. Algo que quer ser dito, que quer retornar após ter sido jogado para as masmorras pela repressão interna, justamente por ser de uma ordem que não se encaixa nos padrões de ética, moral, valores, medos e tudo mais que está na nossa muralha do ideal do eu.

E por que precisa ser dito? Porque o que está lá recalcado quer retornar, quer ser escutado. Dá sinais de sua insatisfação por ter sido amordaçado e aparece na forma de sintoma. Não é fácil conseguir tal ouvinte, que ouça sem julgar. E ainda por cima seja paciente o suficiente para esperar esse milagre da aparição do conteúdo inconsciente e depois abrir caminho para a elaboração. Seu amigo no bar não vai conseguir ir tão longe, por mais que seja grande sua boa vontade e grau alcóolico, muito menos as fórmulas matemáticas que regem suas redes sociais.

Daí o mérito da análise e de sua forma de trabalho. Fazer análise não é esperar encontrar um mico de circo que ria de suas piadas e acene a cabeça em concordância com suas falas. Tem que ter um quê de disruptivo, de conversa diferente, não comum. Uma estranheza que nos tire do piloto automático que estamos habituados, um modo de automatismo que por horas nem foi por nós programado. E por que precisamos disso? Porque somos máquinas de acumular energia psíquica, uma energia que precisa de escape para a pressão não destruir o corpo que a contém. E, como nos diz Anna em sua lição para o inventor da psicanálise, deixar-se hipnotizar não é suficiente. Por mais que seja gostosa essa entrega para a tela do celular, algo vai faltar.

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