Os rótulos do nosso tempo

Encontrar uma criança que tem um diagnóstico de TDAH ou autismo virou uma coisa mais do que comum em qualquer escola. O processo é bem conhecido: o aluno começa a ir mal, ter dificuldades em prestar atenção no ensino, ou não interage bem com os colegas, e daí recomenda-se procurar um especialista. E de lá invariavelmente sai com um carimbo.

O que será que está acontecendo? Houve realmente uma explosão no número de casos dessas e outras condições entre as crianças na atual geração? Mas por quê? A resposta não está no que se olha, mas como se olha para a questão. Para entender como chegamos aqui temos que pegar uma máquina do tempo e retornar a Aristóteles. O filósofo grego talvez tenha sido o primeiro grande representante da classificação das coisas. Inventou um método para classificar cada uma pela sua substância, qualidade, quantidade, tempo etc. Além disso classificou animais, formas de governo, tipos de causas e tudo o mais que encontrasse pela frente, sob a máxima de que o mundo é ordenável racionalmente.

Esse tipo de pensamento serviu muito bem à medicina. Os seres completos foram fatiados, divididos em órgãos, em células, em substâncias venosas e tudo mais que pudesse ser separado, catalogado, nomeado e, portanto, entendido. E como todo esse sistema se comporta quando estamos diante do desafio de entender o mistério do pensamento humano? A psiquiatria partiu da mesma premissa organizacional das outras ciências e criou centenas e centenas de rótulos para dar conta de listar todas as mazelas e condições “anormais” da psique humana. O DSM-5-TR, manual mais usado hoje em dia, conta com mais de 300 transtornos mentais. E se levarmos em conta os subtipos, como “leve”, “grave” e assim por diante, o número é ainda maior.

Mas será mesmo que a mente de cada indivíduo pode ser catalogada como as substâncias químicas na tabela periódica? Existe mesmo a “normalidade” e a “anormalidade”? São perguntas inquietantes. De fato, grandes pensadores, como Immanuel Kant, defendem que “pensar é categorizar”. Temos mais facilidade de absorver informações quando elas estão divididas em caixas. Não é à toa que Bill Gates batizou seu sistema operacional de Windows e separou tudo em pastas e janelas.

Na psicanálise também existem modos de agrupar as diferentes instâncias psíquicas e inclusive como elas se articulam em cada pessoa. Lacan utilizou o termo “estruturas” para pensar como cada sujeito se organiza perante a linguagem – que, dito de outra forma, também é uma classificação. Porém a questão é como utilizamos essas ferramentas. Uma coisa é considerar essas estruturas como forma de balizamento para pensar a clínica, porém sabendo que cada indivíduo é único. Outra, bem diferente, é abrir um baú, jogar a pessoa dentro, e colocar no rótulo todas as características que aquele tipo de coisa possui e dar o problema como resolvido.

Veja bem, não quero dizer que não existam autistas ou pessoas com TDAH. A questão é como esse autismo se comporta para cada um. A singularidade de cada psique é importante, mas ela desaparece diante dos crachás que a sociedade nos põe. Todo cuidado é pouco nesse campo. Quando um pai procura um psicólogo e diz “minha filha é autista” ele o faz como se estivesse ali um grande resumo de quem é a menina. Mas será mesmo que isso resume tudo sobre ela?

A experiência humana é marcada pela singularidade e por mais que o pensamento aristotélico esteja em nós, que gostemos de uma boa e velha classificação, temos que ter no horizonte que a individualidade de cada um é mais relevante do que as etiquetas que podemos pendurar nele.

É preciso entender que as relações de cada ser com a cultura mudam em cada época, em cada espaço. É um processo dinâmico. Daqui a pouco o DSM vai estar com 10 mil tipos diferentes de transtornos listados e vai considerar o engordamento da lista como um avanço. As janelas de Bill Gates nos ajudam a pensar a experiência humana, mas só são benéficas quando temos em mente que são meras tentativas de nós, seres limitados, de entender o que é inapreensível. E que duas crianças com TDAH podem se comportar de forma diferente, gostar de coisas diversas, aprender em ritmos próprios, mostrar capacidade de concentração variada, cada uma à sua maneira. E se uma dessas crianças chega dizendo que tem TDAH a melhor pergunta ainda é “e como é isso para você?

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