
A Sabesp anunciou nesta terça-feira (12) a ampliação do auxílio emergencial destinado às famílias atingidas pela explosão registrada no bairro do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo. O valor inicial de R$ 2 mil, alvo de críticas após o acidente, foi elevado para R$ 5 mil por família afetada. Segundo a concessionária, quem já recebeu a primeira transferência via Pix terá direito a complemento nos próximos dias.
A medida foi anunciada após a forte repercussão do acidente ocorrido na tarde de segunda-feira (11), quando uma explosão durante uma obra envolvendo redes subterrâneas da Sabesp e da Comgás provocou destruição em série em uma comunidade da região. A principal linha de investigação aponta que equipes da Sabesp perfuraram uma tubulação de gás liquefeito de petróleo (GLP) durante uma obra de remanejamento de rede de água, provocando vazamento seguido de explosão e incêndio.
O acidente ocorreu por volta das 16h10 na Rua Doutor Benedito de Moraes Leme. Um homem de 45 anos morreu e outras três pessoas ficaram feridas. Um dos feridos é funcionário da própria Sabesp e outro permanece internado em estado grave, entubado em leito de UTI. Segundo a Defesa Civil, ao menos 46 imóveis foram interditados, sendo cerca de dez completamente destruídos ou colapsados. Aproximadamente 160 pessoas ficaram desalojadas após a explosão.
Ministério Público entra no caso
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) esteve no local nesta terça-feira para iniciar avaliação sobre a extensão dos danos materiais e humanos provocados pelo acidente. O órgão mobilizou representantes das áreas do consumidor, urbanismo, idoso e infância para acompanhar a situação das famílias atingidas e apurar possíveis responsabilidades civis e coletivas.
Segundo o subprocurador-geral de tutela cível e coletiva do MPSP, Fausto Junqueira de Paula, o foco inicial é garantir proteção às vítimas antes da definição de eventuais responsabilizações. “Apurar a extensão dos danos, da violação de direitos e tentar, a todo custo, recompor a situação, principalmente em relação aos direitos fundamentais das pessoas que foram vitimadas”, afirmou.
O representante do Ministério Público declarou ainda que não existe prazo definido para conclusão das investigações nem para eventual responsabilização das empresas envolvidas. “Vamos agora visitar as vítimas, ver a situação pessoal de cada uma delas. Estamos primeiro zelando pela segurança das pessoas. Depois, vem a questão do patrimônio, da vida pessoal, integridade física e dignidade dessas pessoas”, disse.
Relatos de moradores ampliam questionamentos
Moradores da região afirmaram à imprensa que havia forte cheiro de gás horas antes da explosão e que equipes presentes na obra chegaram a ser alertadas sobre o vazamento. Os relatos agora fazem parte das investigações conduzidas pela Polícia Civil, pelo Instituto de Criminalística e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Vídeos registrados por moradores mostram casas reduzidas a escombros, incêndios atingindo imóveis vizinhos e pessoas tentando escapar da área logo após a detonação. O Corpo de Bombeiros mobilizou mais de dez viaturas e cães farejadores para buscas entre os destroços.
Em nota divulgada após o acidente, a própria Sabesp confirmou que uma tubulação de gás foi atingida durante a execução da obra. A empresa afirmou que os trabalhos foram interrompidos imediatamente após a perfuração da rede e que a Comgás foi acionada para adoção dos protocolos técnicos.
Terceira morte ligada à Sabesp desde privatização
O acidente no Jaguaré é o terceiro caso fatal envolvendo obras ou estruturas da Sabesp em menos de um ano, período marcado pela privatização parcial da companhia, concluída em julho de 2024.
Em setembro do ano passado, uma mulher morreu em Mauá, na Grande São Paulo, após uma tubulação da Sabesp cair sobre sua casa durante uma obra em uma adutora. Clelia dos Santos Pimentel, de 79 anos, estava sentada no sofá da sala quando foi atingida pela estrutura metálica que se soltou durante o içamento do equipamento.
Já em março deste ano, outro acidente envolvendo a companhia deixou um morto e sete feridos em Mairiporã, também na Grande São Paulo. Um reservatório de água ainda em construção se rompeu durante a execução da obra. A vítima foi um trabalhador terceirizado de 45 anos contratado para atuar na construção da estrutura.
A sequência de acidentes ampliou críticas sobre protocolos de segurança operacional, fiscalização e gestão das obras da concessionária após a privatização. Movimentos sociais, sindicatos e parlamentares da oposição passaram a cobrar investigações independentes e maior transparência sobre contratos, terceirizações e padrões técnicos adotados pela empresa.
Pressão política aumenta
O episódio no Jaguaré rapidamente ganhou dimensão política. Integrantes da oposição em São Paulo passaram a relacionar o acidente ao modelo de privatização conduzido pelo governo Tarcísio de Freitas e cobraram responsabilização das concessionárias envolvidas.
A Arsesp, agência reguladora responsável pelos serviços públicos do estado, informou que abriu investigação para apurar as circunstâncias da explosão. O órgão solicitará relatórios técnicos, registros operacionais e documentos relacionados à obra executada pela Sabesp e pela Comgás. Dependendo do resultado da apuração, as empresas poderão sofrer sanções administrativas e multas.
Enquanto a perícia tenta determinar a sequência exata do acidente, dezenas de famílias seguem fora de casa sem previsão de retorno. Sabesp e Comgás afirmaram que estão custeando hospedagem em hotéis, assistência médica e apoio psicológico às vítimas, além do pagamento do auxílio emergencial e da promessa de ressarcimento integral dos prejuízos materiais.