Tarcísio
Marcos Galvão/Alesp

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), sancionou na quinta-feira (2) uma nova lei que autoriza o estado a contratar cerca de R$ 15 bilhões em empréstimos em moeda estrangeira, principalmente em dólar, junto a instituições financeiras internacionais. A medida amplia o espaço de financiamento do governo paulista para projetos de infraestrutura, mobilidade e logística, mas também introduz um fator adicional de risco ao atrelar parte da dívida estadual à variação cambial.

A autorização legislativa permite que o estado acesse crédito externo em um momento de restrição fiscal e juros elevados no mercado doméstico. A estratégia tem sido adotada por diferentes entes federativos como forma de buscar condições mais favoráveis de financiamento fora do país, sobretudo junto a organismos multilaterais como Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e outras instituições de crédito internacional.

Em geral, essas operações oferecem prazos mais longos e taxas menores do que as disponíveis internamente, o que tem sido utilizado como argumento para justificar a captação.

Estrutura da operação

A lei não representa a contratação imediata dos recursos, mas autoriza o Executivo a realizar operações de crédito ao longo do tempo, conforme necessidade e aprovação de projetos específicos. Cada operação ainda depende de análise da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), que avalia a capacidade de pagamento do estado e os limites de endividamento previstos na legislação federal.

Os recursos devem ser direcionados a áreas consideradas prioritárias pela gestão estadual, como obras de infraestrutura viária, expansão de sistemas de transporte e investimentos em logística. Parte dessas iniciativas já integra o portfólio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs) do governo paulista, que tem buscado ampliar investimentos com participação privada e financiamento estruturado.

Risco cambial

A principal implicação da medida está na exposição ao dólar. Ao contratar dívida em moeda estrangeira, o estado passa a depender da variação cambial para determinar o custo real do financiamento. Em cenários de desvalorização do real, o valor da dívida aumenta automaticamente, pressionando as contas públicas.

Esse tipo de operação exige mecanismos de gestão de risco, como operações de hedge ou estruturas financeiras que minimizem a volatilidade cambial. Ainda assim, especialistas apontam que a adoção de dívida externa amplia a vulnerabilidade fiscal, especialmente em períodos de instabilidade econômica global ou pressão sobre moedas de países emergentes.

Efeitos políticos e próximos governos

A autorização para contratação de crédito externo em larga escala também tem implicações diretas sobre os próximos ciclos de governo. Embora os recursos possam viabilizar obras e investimentos no curto prazo, o serviço da dívida, como o pagamento de juros e amortizações, tende a se concentrar nos anos seguintes, atravessando mandatos futuros.

Em um cenário eleitoral, esse tipo de medida desloca parte das decisões fiscais para além da atual gestão, criando compromissos que deverão ser administrados por governos subsequentes. Isso inclui não apenas o impacto da dívida em si, mas também a exposição à variação cambial, que pode alterar significativamente o custo final das operações ao longo do tempo.

Na prática, a política de captação externa combina expansão de investimento no presente com aumento de obrigações futuras, o que tende a influenciar o espaço fiscal das próximas administrações e suas prioridades orçamentárias.

Contexto fiscal e estratégia

A decisão ocorre em um momento em que estados buscam ampliar investimentos sem comprometer limites fiscais. São Paulo mantém uma das maiores economias do país e possui capacidade de endividamento considerada elevada em relação a outras unidades da federação, o que facilita o acesso a crédito internacional.

A gestão de Tarcísio de Freitas tem priorizado a expansão de investimentos em infraestrutura como eixo central de sua política econômica, com foco em concessões, privatizações e ampliação da participação privada em projetos estratégicos. A autorização para captação externa se insere nesse modelo, ao viabilizar recursos para obras de maior escala.

Debate e críticas a Tarcísio

A aprovação da lei também gerou questionamentos sobre os riscos associados à dolarização da dívida pública estadual. Críticos apontam que, embora o crédito externo possa oferecer condições mais vantajosas no curto prazo, ele transfere para o futuro a exposição a oscilações cambiais que fogem ao controle da gestão local.

Há ainda preocupações sobre transparência e priorização dos investimentos, uma vez que a autorização é ampla e não vincula, de forma detalhada, os recursos a projetos específicos já aprovados. Nesse contexto, o acompanhamento das operações e a execução dos contratos passam a ser elementos centrais para avaliar os impactos da medida sobre as finanças públicas do estado.

A lei sancionada abre caminho para uma nova etapa da política de financiamento paulista, combinando acesso a capital internacional com maior exposição a variáveis externas, em um cenário econômico ainda marcado por incertezas.

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