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O Intercept Brasil divulgou nesta terça-feira (19) novos áudios, mensagens e detalhes da relação entre o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e o banqueiro Daniel Vorcaro no financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A reportagem aponta que Frias atuava diretamente na articulação do longa-metragem e mantinha relação de proximidade pessoal com Vorcaro, contrariando o distanciamento público adotado pelo parlamentar após a explosão do escândalo.

Segundo o Intercept, o principal áudio foi enviado por Mario Frias ao banqueiro em 11 de dezembro de 2024, poucas horas após o horário previsto para uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em Brasília. Na gravação, obtida com exclusividade pelo veículo, Frias agradece o apoio ao projeto cinematográfico e afirma que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e será “muito importante para o nosso país”.

“Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando”, diz o deputado no áudio revelado pelo Intercept.

Na sequência da troca de mensagens, Vorcaro responde: “Eu tô numa ligação, te chamo em seguida”. Pouco depois, os dois realizam uma chamada de voz de aproximadamente dois minutos.

A gravação amplia as contradições nas declarações dadas por Mario Frias na semana passada, quando o deputado afirmou publicamente que Daniel Vorcaro “não havia dado um único centavo” para o filme. Após a repercussão negativa das primeiras reportagens do Intercept, o parlamentar mudou parcialmente a versão e declarou existir apenas “diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”.

O novo material divulgado pelo Intercept, porém, indica que a relação entre os dois ia além de um contato protocolar entre investidor e produtor. As mensagens mostram Mario Frias chamando Vorcaro de “meu irmão”, utilizando linguagem religiosa e tratando o financiamento do filme como uma missão política e histórica ligada ao bolsonarismo.

Filme era tratado como “milagre” e peça política para 2026

As mensagens divulgadas pelo veículo mostram que o deputado acompanhava diretamente negociações da produção internacional de “Dark Horse” e discutia detalhes do projeto com entusiasmo político e ideológico. Em 15 de dezembro de 2024, quatro dias após o áudio enviado ao banqueiro, Mario Frias encaminhou a Vorcaro uma captura de tela com conversas envolvendo o diretor americano Cyrus Nowrasteh, responsável por filmes religiosos e produções de temática conservadora.

No diálogo, Cyrus Nowrasteh afirmava que conversaria com o ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, sobre a possibilidade de participação no longa. Segundo o print enviado por Frias, o diretor dizia que Caviezel faria duas perguntas antes de aceitar o projeto: “Posso ler o roteiro?” e “Eles vão me pagar bem?”. Mario Frias respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.

Abaixo da imagem, Frias escreveu a Vorcaro: “Milagres só são possíveis quando há fé.”

Na sequência, o parlamentar complementa: “Esse é um desses milagres” “Vai ser a maior super produção de uma história brasileira.”

Dias depois, em 22 de dezembro de 2024, Mario Frias voltou a trocar mensagens com o banqueiro. Segundo o Intercept, Vorcaro informou que estava na igreja e prometeu retornar a ligação quando saísse. Antes mesmo da resposta, o deputado enviou uma sequência de mensagens afirmando que o filme seria “o grande milagre”, teria capacidade de tocar “milhões de pessoas no mundo todo” e cumpriria “papel histórico imprescindível para as futuras gerações”.

Frias também classificou a produção como uma “questão de justiça divina” e escreveu: “JB precisa ter sua verdadeira história revelada.” “2026 é do Brasil.” “Deus te abençoe meu brother.”

As mensagens reforçam a dimensão política atribuída ao filme dentro do núcleo bolsonarista. O longa vinha sendo tratado internamente como instrumento de projeção internacional da imagem de Jair Bolsonaro e peça importante da reorganização da direita para as eleições presidenciais de 2026.

Produção de Bolsonaro previa orçamento de até US$ 26 milhões

As investigações conduzidas pelo Intercept apontam que “Dark Horse” possuía orçamento estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões, algo próximo de R$ 140 milhões na cotação atual. Parte significativa dos recursos teria sido negociada diretamente entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

O projeto era conduzido pela GoUp Entertainment, enquanto Mario Frias e Eduardo Bolsonaro apareciam como produtores-executivos.

Documentos divulgados anteriormente pelo Intercept mostram que Eduardo Bolsonaro tinha participação formal nas decisões financeiras, captação de recursos e estruturação de investidores da obra. Parte dos valores negociados teria sido direcionada a fundos sediados nos Estados Unidos ligados ao advogado de imigração Paulo Calixto.

Segundo o plano de negócios revelado pelo veículo, investidores poderiam comprar cotas de US$ 500 mil, enquanto pacotes superiores a US$ 1 milhão incluíam benefícios relacionados à imigração para os Estados Unidos.

Caso amplia crise no bolsonarismo

As novas revelações aumentam a pressão política sobre o entorno bolsonarista em um momento de reorganização da direita para 2026. A relação entre Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias e Daniel Vorcaro passou a gerar desgaste entre empresários conservadores e lideranças políticas que acompanhavam a pré-candidatura presidencial de Flávio.

Nos últimos dias, o ex-governador Romeu Zema classificou a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro como “imperdoável” e afirmou que o episódio representa “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.

Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal ampliaram investigações envolvendo emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas ao filme e movimentações financeiras internacionais relacionadas à produção.

Defesa fala em “relação legítima”

Após a publicação da reportagem, a defesa de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Daniel Vorcaro, mas afirmou que as mensagens refletem apenas “uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo os advogados, Frias não atuou como articulador político ou financeiro do banqueiro.

A defesa também sustentou que o entusiasmo demonstrado nas mensagens privadas decorria apenas da “dimensão artística e cultural do projeto”.

O PL foi procurado pelo Intercept, mas não respondeu. A defesa de Daniel Vorcaro informou que o banqueiro não irá se manifestar sobre o caso.

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