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Reuters

O governo dos Estados Unidos (EUA) anunciou nesta quinta-feira (28) que irá classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A decisão foi confirmada pelo secretário de Estado Marco Rubio e representa uma mudança histórica na forma como Washington passa a tratar as maiores facções criminosas brasileiras.

Com a nova classificação, as duas facções passam a integrar oficialmente a lista americana de “Foreign Terrorist Organizations” (FTOs), categoria utilizada pelos EUA para grupos considerados ameaça à segurança nacional americana e à estabilidade internacional.

Na prática, isso significa que qualquer pessoa, empresa ou instituição financeira que mantenha relações comerciais, financeiras ou operacionais com integrantes ligados às facções poderá ser alvo de sanções americanas. A medida também permite congelamento de ativos em dólar, bloqueio de contas bancárias internacionais, restrições migratórias e ampliação de investigações globais sobre lavagem de dinheiro e tráfico internacional.

O que muda na prática com a classificação

A decisão americana vai muito além de uma declaração política simbólica. A partir da entrada em vigor da medida, prevista para junho, integrantes das facções poderão ser enquadrados em legislações antiterrorismo americanas mesmo fora do território dos Estados Unidos. Isso amplia drasticamente a capacidade de cooperação internacional envolvendo FBI, DEA, Departamento do Tesouro e agências financeiras globais.

Empresas internacionais também passam a correr risco jurídico caso mantenham relações comerciais indiretas com operadores financeiros ligados ao PCC ou ao Comando Vermelho. Bancos internacionais tendem a aumentar mecanismos de rastreamento de operações suspeitas relacionadas ao Brasil e à América do Sul.

Especialistas em segurança internacional afirmam que o principal impacto será financeiro. O PCC e o CV movimentam bilhões de reais por meio de narcotráfico, mineração ilegal, tráfico de armas, apostas clandestinas e lavagem internacional de dinheiro. Grande parte dessas operações depende de circulação em dólar, offshores e redes bancárias globais.

Com a classificação, os EUA passam a poder pressionar bancos, corretoras, empresas de transporte, operadores logísticos e até governos estrangeiros a cooperarem diretamente com investigações relacionadas às facções brasileiras.

Medida também tem impacto diplomático e político para Brasil e EUA

O anúncio ocorre poucos dias após reuniões do senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) com Marco Rubio, aliados de Donald Trump e integrantes do núcleo republicano em Washington.

Nos bastidores de Brasília, integrantes do governo Lula avaliam que a medida possui forte componente político e ideológico, além da dimensão de segurança pública.

O governo brasileiro vinha tentando evitar a classificação desde o início das negociações diplomáticas com Washington neste ano. O principal argumento do Itamaraty era que enquadrar facções criminosas brasileiras como grupos terroristas poderia abrir precedente para ampliação de interferência americana em assuntos internos de segurança pública.

O temor de diplomatas brasileiros é que futuras operações internacionais passem a ser justificadas sob a lógica global de “combate ao terrorismo”, modelo já utilizado pelos EUA em ações no Oriente Médio e em países latino-americanos ligados ao narcotráfico.

O assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, afirmou que o Brasil aceita cooperação contra tráfico e lavagem de dinheiro, mas rejeita qualquer possibilidade de violação da soberania nacional brasileira.

PCC e CV se tornaram redes transnacionais

A decisão americana ocorre em um momento em que PCC e Comando Vermelho ampliaram significativamente sua atuação internacional.

O PCC, criado nos anos 1990 em presídios de São Paulo, hoje controla rotas internacionais de cocaína ligadas ao Paraguai, Bolívia e Peru, além de manter conexões com organizações criminosas na Europa e na África.

Já o Comando Vermelho expandiu sua presença para fronteiras amazônicas e regiões estratégicas ligadas ao tráfico internacional de drogas e armas.

Relatórios internacionais estimam que as duas facções movimentem bilhões de dólares anualmente e tenham influência crescente sobre rotas globais do narcotráfico.

Nos últimos anos, autoridades americanas passaram a comparar parte da estrutura financeira e logística dessas facções ao modelo utilizado por cartéis mexicanos e organizações paramilitares latino-americanas.

Especialistas alertam para riscos da decisão

A medida vem dividindo especialistas em segurança pública e relações internacionais. Defensores da classificação afirmam que o enquadramento fortalece mecanismos globais de inteligência financeira e dificulta operações internacionais das facções brasileiras.

Já críticos alertam que misturar organizações criminosas e terrorismo pode ampliar militarização do combate ao crime e criar precedente perigoso para intervenções políticas e diplomáticas mais agressivas dos EUA na América Latina.

Parlamentares democratas americanos chegaram a pressionar o governo Trump contra a medida, alegando risco de deterioração das relações com o Brasil e aumento da tensão regional.

Mesmo assim, o governo Trump decidiu avançar com a estratégia, ampliando um modelo que já vinha sendo aplicado contra cartéis mexicanos e grupos criminosos venezuelanos desde o início do novo mandato republicano.

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