EUA
Reuters

A decisão do governo dos Estados Unidos (EUA) de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras provocou uma reação imediata dos principais nomes do tabuleiro eleitoral de 2026 e transformou a segurança pública em um dos primeiros grandes campos de disputa da corrida presidencial.

O anúncio feito pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi recebido de formas opostas pelos presidenciáveis. Enquanto setores ligados ao bolsonarismo celebraram a medida como demonstração de endurecimento internacional contra o crime organizado, integrantes da base governista passaram a tratar a decisão como uma tentativa de interferência externa em temas de soberania nacional.

O episódio ganhou dimensão ainda maior porque ocorreu poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) viajar a Washington e se reunir com Donald Trump, Marco Rubio e integrantes do núcleo republicano. Segundo veículos americanos e brasileiros, aliados do senador vinham defendendo junto ao governo Trump a classificação das facções brasileiras como grupos terroristas.

Lula reage e fala em soberania nacional

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou o tom mais duro entre os presidenciáveis ao reagir à medida.

Durante agenda pública nesta sexta-feira (29), Lula afirmou que o Brasil não aceitará ser tratado como “republiqueta” e criticou diretamente a articulação de integrantes da família Bolsonaro junto ao governo americano.

Segundo o presidente, o país aceita cooperação internacional contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e narcotráfico, mas rejeita qualquer tentativa de transformar a política de segurança brasileira em instrumento de pressão externa.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, auxiliares passaram a interpretar a decisão como uma vitória política momentânea de Flávio Bolsonaro em um tema considerado sensível para o eleitorado. A estratégia do governo agora é tentar associar o episódio à defesa da soberania nacional e ao risco de abertura de precedentes para interferências estrangeiras.

Flávio Bolsonaro transforma decisão em bandeira eleitoral

Entre os nomes da direita, Flávio Bolsonaro foi quem mais comemorou o anúncio americano. Aliados do senador passaram a apresentar a decisão como resultado direto da articulação realizada por ele em Washington e como demonstração de alinhamento internacional no combate ao crime organizado. O tema já vinha sendo tratado por assessores do parlamentar como uma possível bandeira eleitoral para 2026, principalmente em um momento em que a segurança pública voltou ao centro do debate nacional.

A avaliação dentro do bolsonarismo é que o endurecimento contra PCC e CV possui forte apelo popular e pode ajudar a consolidar uma narrativa de contraste entre a direita e o governo Lula na área de segurança.

Ao mesmo tempo, adversários passaram a acusar Flávio de estimular uma interferência internacional sobre o Brasil. Integrantes da base governista também passaram a associar a movimentação ao avanço da crise política envolvendo o caso “Dark Horse” e as investigações que atingem o núcleo bolsonarista.

Segurança pública se torna eixo central da disputa

A reação dos presidenciáveis mostra que a classificação das facções extrapolou rapidamente o campo diplomático e passou a ocupar posição estratégica na disputa eleitoral.

Nos últimos anos, o PCC e o Comando Vermelho ampliaram presença em fronteiras internacionais, rotas de narcotráfico, mineração ilegal e esquemas de lavagem de dinheiro. Relatórios internacionais estimam que as duas organizações movimentem bilhões de reais por ano e mantenham conexões em diversos países da América Latina, Europa e África.

Com isso, a segurança pública tende a se consolidar como um dos temas centrais da campanha presidencial, ao lado de economia e desigualdade social.

Enquanto a direita tenta utilizar a decisão americana como demonstração de firmeza contra o crime organizado, o governo busca enfatizar riscos à soberania brasileira e alertar para possíveis consequências diplomáticas e econômicas da classificação.

Caiado e Zema apoiam medida dos EUA e reforçam discurso de endurecimento

Entre os nomes da oposição que disputam espaço na corrida presidencial de 2026, a decisão americana foi recebida de forma positiva.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), afirmou que a classificação reconhece a dimensão internacional alcançada pelas facções brasileiras e criticou o que chamou de leniência histórica do Estado brasileiro no enfrentamento ao crime organizado. Caiado voltou a defender maior integração entre forças de segurança, endurecimento penal e ampliação das ações de inteligência contra organizações criminosas.

Em linha semelhante, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), declarou que o PCC e o Comando Vermelho operam hoje como estruturas criminosas transnacionais e que o Brasil deveria fortalecer a cooperação internacional para combater tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Zema também aproveitou a discussão para criticar a política de segurança do governo federal.

As manifestações aproximaram os dois governadores do discurso defendido por Flávio Bolsonaro, que atribuiu a decisão americana à necessidade de tratar as facções brasileiras como ameaças globais e não apenas como organizações criminosas convencionais.

Presidenciáveis se dividem entre soberania e segurança

A reação dos principais nomes cotados para a disputa presidencial de 2026 evidenciou uma divisão clara sobre o tema.

De um lado, Lula passou a enfatizar a defesa da soberania nacional e o risco de precedentes para interferências externas em assuntos internos do Brasil. De outro, Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema defenderam a classificação como instrumento legítimo para ampliar o combate internacional ao crime organizado.

A divergência revela uma das linhas de confronto que devem marcar a campanha presidencial: enquanto o governo buscará enquadrar o debate na defesa das instituições e da autonomia brasileira, a oposição tentará associar o tema à segurança pública e ao combate às facções criminosas, assunto que tradicionalmente apresenta forte apelo junto ao eleitorado.

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